Guiné-BissauOpiniãoSaúde

A grande (e pouco conhecida) contribuição da Guiné-Bissau para a investigação científica mundial

Em 1978, durante o período revolucionário na Guiné-Bissau, um antropólogo dinamarquês visitou a capital Bissau com o objetivo de perceber as causas da excessiva taxa de mortalidade infantil que afetava o país. Hoje, 37 anos depois, o projeto que lá criou faz parte da vida dos guineenses. E dos dinamarqueses também.

Era 1978 e metade das crianças guineenses falecia antes de chegar aos cinco anos de idade, o equivalente a uma criança por segundo. A causa: desconhecida.

Apenas quatro anos depois do 25 de Abril, e ainda no início do período revolucionário, o país só veria as primeiras eleições multipartidárias 16 anos depois, em 1994. As eleições trouxeram mais instabilidade e uma guerra civil. Outras guerras viriam e ainda hoje o país é dos mais instáveis em África.

Mas, voltando à mortalidade infantil e a 1978: Peter Aaby, antropólogo formado pela Universidade de Copenhaga, tinha apenas 34 anos quando iniciou o projeto de registo e monitorização da população guineense no subúrbio de Bandim. Na altura, pensava-se que malnutrição era a principal causa de morte das crianças, mas das 1.200 avaliadas pela equipa de Peter durante o primeiro ano do projeto, apenas duas se encontravam gravemente malnutridas. Essa seria apenas a primeira das muitas questões enigmáticas que viriam a marcar o projeto de Peter na Guiné-Bissau e a impulsionar várias descobertas de grande relevância científica, e grande polémica.

No ano em que Peter chegou a Bissau, houve também uma epidemia de sarampo, com uma taxa de mortalidade de 22%. Contestando a então ideia dominante que privilegiava a eliminação das causas da malnutrição em vez da vacinação, Peter e a sua equipa começaram a vacinar as crianças e no período de um ano, a mortalidade infantil caiu para um terço.

A partir desse momento, o foco do novo centro de investigação na capital do país seria os efeitos não específicos das vacinas. Afinal, a efetividade da vacina contra o sarampo em prevenir a mortalidade infantil tinha sido, em diversos estudos em África, sempre muito superior às mortes atributáveis à doença em si. Em muitos casos, a vacina tinha reduzido a mortalidade em 50%, mas a doença só tinha sido responsável por 10% das mortes. Os efeitos da vacina tinham sido surpreendentes. O mesmo padrão veio-se mais tarde a verificar nas vacinas contra a varíola e contra a tuberculose (BCG).

Para além dos efeitos não específicos positivos, o grupo descobriu também que a vacina Tríplice Bacteriana (ou DTP, contra difteria, tétano e coqueluche) parece aumentar a mortalidade causada por outras doenças, e que os efeitos não-específicos das vacinas são mais fortes em meninas.

Hoje, os especialistas responsáveis pelo Projeto de Saúde Bandim assumem com confiança que as vacinas não protegem apenas contra as doenças para que foram criadas; protegem também contra infeções e doenças não relacionadas. Estes “efeitos não-específicos” têm um grande impacto na mortalidade infantil e a comunidade internacional pode salvar milhões de crianças nos países mais pobres, se os programas de vacinação tiverem em consideração estes efeitos.

Os resultados e hipóteses propostas pela equipa da Guiné-Bissau causaram polémica na comunidade científica internacional mas em 2014 a Organização Mundial para a Saúde admitiu o mérito dos estudos e sugeriu mais investigação aos efeitos não-específicos das vacinas.

Um projeto único em África

No início a informação era recolhida à mão, mas desde 1995 foi transferida para um sistema baseado na tecnologia GIS. A cada três anos, a equipa do Projeto de Saúde Bandim faz um censo à população em estudo, de cerca de 200 mil pessoas. Cada casa é mapeada meticulosamente e numerada, e todos os meses, a equipa do Bandim visita cada casa com mulheres em idade fértil para que se registem novas gravidezes. Todos os recém-nascidos são registados e é feita uma entrevista com a mãe sobre a gravidez, o parto e aspetos relacionados com o agregado familiar. Todas as crianças são depois acompanhadas pela equipa, de três em três meses, até aos três anos de idade. Em cada visita, informações são recolhidas sobre nutrição, vacinação, doenças e hospitalizações.

Como resultado, a vasta quantidade de informação recolhida pelo grupo em Bissau já originou mais de 600 artigos publicados em revistas científicas internacionais. Os números do projeto não deixam de impressionar: é um dos mais antigos projetos de investigação na área da saúde de todo o continente africano, e também um dos maiores; com 150 assistentes, enfermeiros, médicos e administradores, é um dos maiores empregadores na Guiné-Bissau; cerca de 12% da população do país é monitorada regularmente pelo projeto e as descobertas podem salvar milhões de crianças nos países mais pobres do mundo.

Da realidade à ficção

Com tudo isto, o projeto mereceu o reconhecimento da comunidade científica e é popular entre os guineenses. Mas e os dinamarqueses, será que conhecem a história? Se não conhecem, muitos passarão a conhecer, de uma forma ainda mais estimulante. Uma famosa escritora dinamarquesa decidiu viajar até Bissau para acompanhar o Projeto de Saúde Bandim e pesquisar para o seu novo thriller científico. O livro, publicado em dinamarquês com o titulo “Svalens Graf“, já é bestseller e foi também publicado no Reino Unido e nos EUA. Rapidamente muitos dinamarqueses ouvirão falar da Guiné-Bissau e conhecerão o Projeto de Saúde Bandim, com intriga e muitas vacinas à mistura. Para quando a versão em Português?

Previous post

Sem saber, população brasileira é a que mais consome agrotóxicos no mundo

Next post

Na véspera das vigílias a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou um voto de solidariedade pelos presos políticos angolanos

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *