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Algoritmo português prevê quais os próximos países que dirão sim à cannabis

Em vez de gatos ou pássaros adivinhas, que preveem qual será o próximo país a conquistar o troféu do Campeonato do Mundo de Futebol, Portugal aposta em algoritmos que antecipam quais os territórios que abraçarão a legalização da cannabis ou da marijuana. Surpreendido?

 

A ideia foi concebida por uma consultora portuguesa, fundada por três professores da Universidade do Porto. Esta foi a responsável pela criação de um algoritmo que traça previsões sobre os próximos países que legalizarão a cannabispara uso medicinal ou recreativo. Tudo é realizado com a ajuda de técnicas de inteligência artificial que permitem analisar uma grande quantidade de dados de forma automática. No total, foram consideradas 98 variáveis distintas, incluindo os contextos religioso, político e económico dos diversos países, bem como a liberdade de imprensa, o índice de desenvolvimento humano e a popularidade de debates realizados online sobre a legalização da cannabis. É importante salientar que todos os dados examinados vieram de bases públicas.

 

A LTPLabs, a consultora lusitana responsável pelo algoritmo-adivinha, foi criada em 2014, por Pedro Amorim, Bernardo Almada-Lobo e Luís Guimarães, todos professores na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que se juntaram aquando do doutoramento. O objetivo comum passava por tentar responder às questões do planeamento de produção, através de modelos matemáticos.

 

Perseguindo esse objetivo, o algoritmo português foi criado com o propósito de perceber o mercado global da cannabis. O desafio foi lançado por um cliente da LTPLabs, do setor farmacêutico que, segundo as informações divulgadas pelo jornal Público, estaria interessado em recolher dados sobre o universo da marijuana, que continua a mover dezenas de milhões de euros e está sujeito a fortes pressões legislativas. “Os algoritmos e técnicas de inteligência artificial permitem ‘mastigar’ grandes quantidades de dados para ajudar empresas a chegar a conclusões pertinentes”, explicou Pedro Amorim ao Público.

 

Até ao momento, as previsões do algoritmo têm sido certeiras. No início desde mês (janeiro de 2019), o Governo de Luxemburgo revelou que tem intenções de se tornar o primeiro país da União Europeia a legalizar o uso recreativo da cannabis. Segundo os dados recolhidos pelo algoritmo, este país estava no topo da lista, depois da Austrália e do Reino Unido. Já Portugal, que em junho (2019) aprovou em Parlamento o uso da cannabis para fins medicinais — surge em 13.º lugar na lista. Já a Suécia é apontada como o próximo país que irá legalizar a cannabis para fins medicinais.

 

“O resultado do nosso algoritmo é a probabilidade de legalização da cannabis, à data, em cada país considerado. Chegámos ao resultado, ao comparar os indicadores desse país com os indicadores de outros países em que a cannabis já está disponível para fins medicinais ou recreativos”, acrescentou Paulo Sousa ao Público, gestor da LTPlabs.

 

Fatores que influenciam

Segundo o estudo realizado pela consultora portuguesa, os países com a maior probabilidade de legalizar a cannabis para fins medicinais — entre os quais está a Suécia, a Irlanda e Espanha — tendem a apresentar uma maior liberdade legislativa. Esta é “evidenciada, em todos eles, pela legalização do casamento homossexual e pela adoção de crianças por casais do mesmo sexo”, revelou o documento da LTPlabs sobre as principais semelhanças dos países que se encontram no topo da lista. Além disso, o pluralismo político elevado e o crescente número de publicações sobre a legalização da cannabis em portais cibernéticos — como é o caso do Reddit — são outros elementos em comum nos países que apresentam uma maior probabilidade de dizer sim à cannabis.

 

A cannabis já é legal em mais de 30 países – Imagem: Unsplash

A investigação científica sobre a cannabis e sobre os seus efeitos no organismo foi iniciada no século XIX. Inúmeros estudos científicos revelaram que os principais componentes orgânicos desta planta — conhecidos por canabinóides — ajudam a aliviar sintomas de doenças como a dor crónica ou a esclerose múltipla. Além disso, a cannabis contém propriedades analgésicas, antieméticas e anticonvulsivantes. Com o intuito de aprofundar conhecimentos, têm sido elaborados diversos ensaios e estudos clínicos, que defendem a utilização da marijuana em tratamentos para a rigidez muscular, falta de apetite e, ainda, em náuseas induzidas por tratamentos como a quimioterapia. No entanto, ainda existem algumas incertezas sobre a sua administração e sobre a dosagem correta para cada doença. Desta forma, continua em discussão se o conhecimento científico apreendido, ao longo dos anos de estudo, é suficiente.

 

A cannabis para fins medicinais foi legalizada em 33 países, contudo, para uso recreativo, esta apenas é legal no Uruguai e no Canadá. Nos Estados Unidos, o consumo desta planta também é lícito em vários estados, sendo possível adquiri-la em locais públicos específicos. Noutros países, como Espanha ou Holanda, não se fala de legalização, mas de consumo controlado. Ou seja, a cannabis pode ser consumida em círculos restritos, como clubes ou coffee shops.

 

Segundo as informações divulgadas pelo Público, a equipa da LTPlabs demorou cerca de um mês a criar o algoritmo. A definição dos indicadores que poderiam ser úteis foi a prioridade e, de seguida, foi delineada a forma de obtenção desses mesmos dados. “Queríamos incluir a percentagem de opióides a ser receitada por médicos. Mas eram dados que dificilmente iríamos conseguir porque nem sempre são públicos e, por isso, tiveram de ficar de fora”, esclareceu Pedro Amorim. Além desta limitação, o pequeno número de países que despenalizam o uso da cannabis para fins recreativos também foi um problema.

 

Para o futuro, fica o desejo de Pedro Amorim de ver os resultados deste algoritmo publicados numa revista científica. Além disso, a equipa revelou ao jornal Público que vê muito potencial em adaptar este sistema noutros setores.“É uma área muito interessante, em particular para agentes económicos. Há um conjunto de alterações políticas que podem ter grande impacto económico e, este tipo de ferramentas, ajuda as empresas a perceber como o panorama pode mudar e para onde deve ir o foco”, rematou Paulo Sousa.

 

Agora, cabe-lhe a si, segundo as informações que recolheu deste artigo, averiguar se o algoritmo foi certeiro nas previsões que teceu. Preste atenção aos avanços que irão ser dados em países como o Luxemburgo, a Austrália e o Reino Unido.

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