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Brasil quer um governo autoritário

O segundo turno das eleições presidenciais no Brasil acontecerá no próximo domingo (28) em meio a polêmicas, manifestações e um clima de tensão polarizada no país. As últimas pesquisas eleitorais de Datafolha e Ibope mostram o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL) eleito com 58% dos votos válidos, contra 41% do candidato da esquerda, Fernando Haddad (PT). Entre os dias 23 e 27 de outubro há a previsão de outras 12 sondagens eleitorais que podem mostrar uma alteração no cenário mas, hoje, Bolsonaro seria o novo presidente.

 

O candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro, em visita à Superintendência da Polícia Federal, no Rio de Janeiro (Imagem: Reprodução Agência Brasil)

É possível que nada seja autoritário e o novo governo – democraticamente eleito – se componha com as diferentes forças políticas sociais na base do diálogo e da disputa de forças – o que caracteriza a democracia. No entanto, caso seja Bolsonaro, os sinais mostram o contrário.

 

Em entrevista a uma rede de televisão brasileira (SBT), por exemplo, Bolsonaro disse que, se eleito, não dialogaria com seu oponente, Fernando Haddad. A afirmação vai contra a tradição democrática de diálogo construída nos últimos 30 anos de pós-ditadura no Brasil.

 

Durante toda a campanha o candidato apostou em uma estratégia populista de direita, com laivos de autoritarismo e violência. Já disse “vamos fuzilar a petralhada” – uma referência aos opositores – com um tripé que simulava uma arma em mãos. Já disse, em vídeo, que, se ganhar, ou seus opositores saem do país ou vão para a cadeia. “Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. Em vez de sinais de união, emite sinais de segregação. O histórico anterior é parecido. Defendeu sucessivamente a ditadura militar brasileira (responsável pela morte e desaparecimento de centenas de opositores); a execução do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o torturador da ex-presidente Dilma Rousseff. Ainda fez afirmações misóginas, homofóbicas e racistas, mais de uma vez. Afirma que não vai demarcar terras indígenas (demarcação de terras é o processo de federalização de áreas que garante aos indígenas o direito à terra no Brasil); que vai retirar o Brasil de acordos internacionais sobre o clima, como o Acordo de Paris, e do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. Quando questionado, diz ser mal-entendido.

 

O candidato a vice-presidente de Bolsonaro, General Hamilton Mourão é alinhado ao líder das pesquisas em seus discursos. Também já defendeu publicamente a ditadura militar e o torturador da ex-presidente Dilma Rousseff; criticou direitos trabalhistas como 13º salário e afirmou que casas onde crianças são criadas somente com avós e mães são “fábricas de desajustados“, o que pode ser considerado misógino. Quando questionado, diz que as afirmações estão descontextualizadas.

 

Além do candidato a presidente e seu vice, membros do partido de Bolsonaro (PSL) eleitos para a Câmara e o Senado também se posicionam na mesma linha, com destaque para o filho de Bolsonaro, deputado Eduardo Bolsonaro, que causou polêmica ao falar sobre a possibilidade de fechamento do Supremo Tribunal Federal – órgão máximo da justiça brasileira. Quando questionado, diz ter sido mal interpretado.

Manifestação a favor de Bolsonaro e contra o PT, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (Imagem: Agência Brasil)

Para além da clareza e sinceridade com que a campanha defende posicionamentos contrários às lógicas democráticas de funcionamento das instituições, há de se destacar que a forma de defesa da candidatura é o ataque. Seja aos adversários ou à imprensa – como a ameaça de cortes de verbas após reportagem da Folha de São Paulo que denunciou a ilegalidade da campanha na difusão de notícias falsas pelo Whatsapp. Esta última seria considerada censura por muitos.

 

O posicionamento do candidato não é novidade e não é o cenário mais animador para os defensores da cultura democrática. Pode-se vislumbrar um futuro muito complicado para os brasileiros caso seja eleito e cumpra boa parte de suas propostas. No entanto, as pesquisas e grandes manifestações populares de rua mostram que é isso que grande parte da população quer, pelo menos até o momento. Resta ver os rumos desta última semana de segundo turno, pois em 5 dias muito pode acontecer. Ou restará organizar os setores sociais para um acompanhamento e questionamento constante, após as eleições.

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