OpiniãoPortugal

“Hispania”: Bastião dos valores democráticos

Leya

 

O ano de 2016 ficará para a história como o ano das realizações do impossível: era impossível o “sim” ao BREXIT; era impossível Trump vencer as eleições americanas; era impossível uma Europa não humanitária; seria impossível António Guterres ser Secretário Geral da ONU; era impossível as esquerdas apresentarem uma estabilidade governativa duradoura em qualquer país. Mas tudo isso aconteceu. Apesar de começar a surgir no meio a ideia de que a história não se repete e de que os acontecimentos apenas se comportam de maneira semelhante, a verdade é que a história se repetiu. O capitalismo desenfreado e sem regras leva a uma crise à qual se junta uma outra de cariz terrorista/humanitário que leva o mundo ocidental a virar-se mais uma vez à extrema-direita (a juntar a um sentimento de não participação política dos cidadãos e de uma entrega do poder as elites). A parte mais civilizada do mundo abandona a razão e escolhe o caminho mais fácil de cada vez que as coisas se tornam difíceis, num ato quase cobarde. No final do ano, para além de se elaborar um balanço do ano de 2016 que agora findou, não será de menor importância conhecer as razões para a extrema-direita não crescer na Península Ibérica ao passo que cresce em grande parte da Europa? O que leva estes países a serem mais resistentes a este “vírus”?

 

A extrema-direita cresceu nos últimos anos com partidos como o Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP); FPÖ (Áustria); Jobbik (Hungria); Aurora Dourada (Grécia); Liga Norte (Itália); Verdadeiros Finlandeses (Finlândia); Vlaams Belang (Bélgica); PVV (Holanda); Partido do Povo Dinamarquês (Dinamarca); Democratas da Suécia (Suécia); Partido Nacional Eslovaco (Eslováquia); Partido da Ordem e a Justiça (Lituânia); Ataka (Bulgária); Partido da Grande Roménia (Roménia); e Partido Nacional Democrata (Alemanha). Não há dúvida que apenas as já mencionadas crises não explicam totalmente este crescimento existindo aqui um novo elemento: a surpresa e o contágio. As surpresas do BREXIT e de Trump (que foram como a “poção mágica” foi para Asterix) fizeram a extrema-direita ganhar confiança e acreditar que estes ideais triunfarão mais uma vez no velho continente. Esta extrema-direita é diferente da extrema-direita “clássica” de inspiração nazi, quer na ideologia quer no uso de distintivos ou uniformes paramilitares (à exceção do que ainda hoje utiliza por exemplo o partido Jobbikk Húngaro). A extrema-direita encontra-se impregnada na sociedade optando por uma presença mais relaxada, melhor vestida e com foco na cultura, identidade, valores nacionalistas e católicos, na defesa do “branco pobre”. Este discurso mais contido também seduz aquele que está descontente com as políticas da União Europeia, nomeadamente com as suas imposições, com o agravamento dos pactos de estabilidade e a com a austeridade, ações estas que fazem crescer o número de eurocéticos e em especial numa classe média europeia débil que servia como um importante ponto de equilíbrio político. Esta vê-se agora em pânico, vulnerável e incerta ao ver o seu estilo de vida ameaçado pelos desafios económicos deste século.

 

Dominique Deeynie (especialista em populismo europeu) acredita que “a extrema-direita foi a única que tomou em conta o desenraizamento das populações afetadas pela erosão do seu património material e imaterial…”. Inclusivé Zeid al-Hussein (alto comissário dos direitos humanos da ONU) classifica estes partidos de “demagógicos” e “aldrabões” comparando-os ao DAESH: “A sua formula é simples: fazem as pessoas já nervosas sentirem-se pior sublinhando depois que é tudo causado por um grupo, uma minoria, tentando vender a imagem de um passado em que as pessoas unidas pela sua etnia e religião viviam isoladas e em paz”. No caso Português, segundo o RASI (Relatório Anual de Segurança Interna) verificou-se uma “intensificação do ativismo político…contra políticas migratórias e de refugiados”, mas segundo o professor André Freire estes partidos/movimentos, do ponto de vista estatístico eleitoral são “irrelevantes” e ”praticamente inexistentes”. O PNR nas últimas eleições conseguiu somente 0,5% contra 0,32% das eleições de 2011, facto que comprova o que a Professora Marina Costa Lobo salienta: “…o peso da extrema-direita é reduzido por razões socioeconómicas e o peso dos emigrantes também o é…”. Carlos Jalali (politólogo) acredita que o populismo europeu se deve a três fatores: falta de voz concedida ao “little guy”, euroceticismo e imigração. 28% dos europeus consideram a imigração o tema mais importante na agenda política, mas em Portugal esse valor é de apenas 3%, não existindo perigo de contágio nem de politização do tema. Em Espanha apenas 2% da população afirma ser de extrema-direita (700.000 pessoas) e o maior partido, a Alianza Nacional, conta com apenas 300 filiados. A par de Portugal, Espanha não possui representação parlamentar destes movimentos, mas Esteban Barri (presidente do Movimento Contra a Intolerância) refere que os atos extremistas estão a aumentar. Para percebermos o fenómeno em Espanha é preciso recuar até 1977, quando o parlamento Espanhol publicou uma lei de amnistia em que impedia todos os envolvidos em crimes durante o regime de Franco e da Guerra civil de serem processados, para facilitar e harmonizar a transição para a democracia. Este “fechar de olhos” deixou a porta aberta ao extremismo nas novas gerações devastadas pela crise, e habituadas a ver monumentos de homenagem a Franco. Mas em Espanha aquilo que parece causar mais impacto no espectro político são os partidos antissistema (Podemos) e os partidos separatistas, encabeçados pelo partido democrático catalão que com a coligação “juntos pelo sim” (junts pel si) obtiveram 40% dos votos. Tudo isto indicia um afastar/descrédito dos partidos ditos tradicionais mas nem por isso dá azo ao crescimento de extremismos de direita.

 

Em suma, a extrema-direita não tem expressão na Península Ibérica. Espanha tem problemas emergentes na sua agenda tais como a questão separatista e outras ruturas regionais onde um discurso apocalítico contra a imigração, o euro e o islão não surte efeito. Em Portugal, apesar dos agentes de extrema-direita se queixarem de boicotes por parte dos mass-média, também desde a ditadura estes sempre foram residuais e os portugueses não se preocupam demasiado com a imigração ou xenofobia. A questão histórica e cultural de Portugal parece desempenhar aqui um peso (país com passado ultramarino) refletidas em fortes relações de imigração/emigração e materializadas em instituições supranacionais das quais faz parte tais como a CPLP, Associação Latino Americana de Integração ou a Organização dos Estados Ibero Americanos. A Península deverá continuar como um bastião dos valores da democracia europeia e, citando António Guterres numa entrevista recente: “…em Portugal ninguém ganhou votos com o ódio. Isso, como Português, enche-me de orgulho…”.

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