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Manoel de Barros, poeta brasileiro, deixou este mundo há 4 anos

A valorização da natureza, das pequenas coisas e dos detalhes da vida com os quais poucos se importam é um ponto constante nas obras de Manoel de Barros, autor brasileiro que viveu a maior parte de sua vida junto à natureza e ao Pantanal – vegetação típica do centro-oeste do Brasil. Em novembro de 2018, completam-se quatro anos de sua morte, quatro anos de silêncio, quatro anos de pedra.

 

Manoel nasceu em Cuiabá – capital do Mato Grosso, centro do Brasil – em 19 de dezembro de 1917 e faleceu na capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, em 13 de novembro de 2014, a três anos de completar seu centenário. Durante a vida publicou 18 livros, onde é possível ver a grande presença da infância na vida adulta de uma pessoa, sempre tratada de forma leve e cuidadosamente refletida.

 

Autor mato-grossense conhecido pela relação com as pequenas coisas da vida (Imagem: Reprodução Arquivo)

Sua obra é vinculada à Geração de Modernista de 1945 pela data de publicação de seu primeiro livro: “Poemas Concebidos sem Pecado”, feito em edições caseiras no ano de 1937. No entanto, ela transcende ao movimento, sendo apontado por alguns especialistas como pós-modernista. Muitos o consideram como um “poeta da natureza”, mas ele é mais do que isso.

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A sua experiência pessoal marca sua obra, como acontece com todo artista. E desde sua mudança para Corumbá (MT), passando por sua formação em Direito no Rio de Janeiro, pela sua participação na Juventude Comunista e pela luta contra a desigualdade social, Manoel destaca tudo aquilo que a sociedade capitalista despreza ou desvaloriza. E o faz com utilização de neologismos, sinestesias, “invencionices”, como diria ele. Ainda tendo como referência suas viagens para Bolívia, Peru, Portugal e Nova York, o autor dedica-se a uma visão política do mundo. E deixou-as para quem quiser ler ou ouvir. Veja abaixo um dos trabalhos. E sinta-se à vontade para buscar mais.

 

Manoel de Barros

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.

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