Cultura

Cerâmica portuguesa: o guia definitivo

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Objetos em cerâmica. (Imagem: Maison)

Quando se pensa em Portugal, não se pode deixar de pensar em cerâmica portuguesa. Essa arte milenar – a cerâmica, que hoje inclui porcelanas, louças, faianças, azulejos, ladrilhos, vasos – acompanha a humanidade.  Não se sabe exatamente por onde começou, pois há exemplares encontrados em locais tão díspares como em tribos indígenas do Brasil, montanhas do Japão, monumentos do Egito ou deserto em Israel. Mas sabe-se que, hoje, é presença obrigatória em Portugal e no mundo, inclusive com rotas turísticas.

Origens e história

Cerâmica é basicamente argila moldada com água — ou barro —, deixando o objeto final em cor terrosa ou escura. O que a envolve e dá aquele tom brilhoso e chamativo das xícaras, louça e azulejos é o esmalte vidrado. Mas, claro, nem sempre foi assim em Portugal.

ceramica arabe
Padrão árabe. (Imagem: Pinterest)

 

Apesar de sempre utilizadas em vasos e potes, a cerâmica como é conhecida começa a chegar a Portugal vinda de Espanha, como influência da presença árabe na Península Ibérica. Começa-se a utilizar azulejos (cujo nome vem de al zulej, “pedra escorregadia e brilhante”, em árabe) com padrões geométricos árabes e cores mais neutras, que alteram-se apenas no século XVI com a criação de esmaltes metálicos. Nesse momento, ampliam-se as cores e as pinturas mais delicadas, desenhadas e ornamentais nas porcelanas e faianças.

barroco
Padrão barroco. (Imagem: Pinterest)

 

Mas só após o século XVII, quando os navegadores portugueses voltavam da China e traziam porcelanas pintadas em azul e branco é que as cores tradicionais até hoje tomaram parte da cultura portuguesa, tanto em azulejos como em faianças e porcelanas — inicialmente acessíveis apenas aos nobres. É também por volta dessa época — período Barroco —  que inicia-se o costume de retratar imagens, cenas de batalhas e histórias em azulejos, formando-se verdadeiros painéis. Em palácios o uso começa a ser comum, mas é principalmente em igrejas e conventos — com motivos religiosos — que os azulejos se imortalizam.

 

A época de Marquês de Pombal foi responsável pela massificação do azulejo em Lisboa por um motivo muito utilitário: após o terramoto de 1755, era preciso algo barato, resistente, prático e bonito. Escadarias e construções foram então revestidas por fora. Os costumes passaram às igrejas e às casas, a partir da recuperação económica de 1840. No século XX, Rafael Bordalo Pinheiro imprimiu sua marca na arte nova, sendo reconhecido como um dos grandes nomes da cerâmica portuguesa, que tem entre seus destaques a riqueza em detalhes. Mais do que embelezamento de interiores e exteriores, os azulejos são, hoje, um traço da identidade portuguesa.

Estação São Bento
Parede interna na Estação de São Bento, no Porto, Portugal. (Imagem: Shutterstock)

As principais marcas de cerâmica portuguesa

Azulejos

Algumas das fábricas de azulejos que foram mais famosas em Portugal já fecharam as portas, como a Fábrica Scotto, por exemplo, nos Açores. Mas duas mantêm-se fortes e trazem grandes contributos para Portugal ainda hoje, sendo, inclusive, objeto de visitas.

 

Desde 1741 a Fábrica Sant’Anna existe em Lisboa, sendo que iniciou com a produção de objetos de cerâmica crua e só migrou para o clássico azulejo — que até hoje tem orgulho de produzir artesanalmente — após o terremoto de 1755, na onda da reconstrução da cidade. Possui visitas guiadas e trabalha na área de restauro. A importância desta histórica fábrica vai além da produção de cerâmica, alcançando o estatuto de embaixador da identidade nacional portuguesa.

 

A maior marca de azulejos portugueses está presente no país desde 1849: a Viúva Lamego, que produz mais que azulejos, produz obras arquitetônicas.

 

Os trabalhos de autor — desenhados exclusivamente para o local que os demandam — estão em algumas das mais importantes localidades de Portugal, como a Avenida Infante Santo e estação de metro Parque, em Lisboa, Banco Espírito Santo, no Algarve, e a Casa da Música, no Porto.

Parede interna da Casa da Música, no Porto, Portugal. A obra é de Ram Koolhaas. (Imagem: Viúva Lamego)

Louças

A Real Fábrica de Louça e a Fábrica de Loiça de Sacavém são duas grandes produtoras que fecharam as portas. Mas duas que existem hoje com grande presença internacional são a Bordalo Pinheiro e a Vista Alegre.

 

O fundador da Fábrica de Faianças Artísticas em 1884, Raphael Bordallo Pinheiro, sempre foi conhecido pelas caricaturas e o trabalho artístico nas cerâmicas que produzia, principalmente focado em motivos da natureza. E esse valor mantém-se até hoje, sendo um forte constituinte da cultura portuguesa. A Bordalo Pinheiro foi adquirida pelo grupo Visabeira, após a grande crise do Euro de 2008, com a promessa de manter-se fiel à tradição e às raízes da empresa.

Exemplo de louça da Bordalo Pinheiro. (Imagem: Bordalo Pinheiro)

A segunda que destacamos aqui é a mais internacionalmente conhecida e importante empresa de louças portuguesas: a Vista Alegre, fundada em 1824. A marca é oficialmente usada em casas reais e oficiais de todo o mundo, como a Casa Branca, Presidência do Brasil, Presidência de Portugal e o Palácio de Buckingham. Vista alegre é uma das mais emblemáticas e tem a mais antiga fábrica da Península Ibérica. É onde trabalha a única mulher vidreira em Portugal.

Exemplo de louça da Vista Alegre. (Imagem: Vista Alegre)

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