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A Ameaça e a Mordaça

Somos todos alvos.

 

Não devido às nossas crenças particulares.

Não devido aos nossos valores enquanto comunidades.

Se há coisa que abunda no Ocidente, diz-se, é a ausência de valores: que se perdem ou que pura e simplesmente nunca tivemos ou que perdemos para o individualismo.

Ainda assim, no Ocidente geográfico, político, social (ainda) podemos usufruir do que quisermos, dentro dos limites da proteção da Lei. (O bom senso já lá vai).

Gozamos, portanto, de Liberdade.

 

As bombas de Paris são daltónicas; as balas das AK-47 de Paris anti-sectárias são-no porque, paradoxalmente, os seus portadores são o seu oposto.

Ao limite.

Habitam, qui ça, um local para lá de qualquer limite.

Qualquer razão serve, qualquer pretexto é válido. Qualquer método é eficaz.

É bom termos isto bem claro nas nossas mentes.

Sabemos, no entanto, o que os perturba e deixa perplexos: a Liberdade, a Igualdade na Diversidade.

Pese embora as desigualdades.

Apesar das incongruências.

Não obstante as contradições.

Que são muitas e graves.

Morreram pessoas, centenas, que são iguais a nós. Em Paris, em Bamaco, em todo o lado.

Em todo o momento.

 

 

Contudo, as ideias de perseverança, de vigilância, de coragem, de cidadania consciente não podem, nem devem, estar apenas direccionadas para o inimigo, para a ameaça, que pode estar ao nosso lado na carruagem do comboio ou do metro, na fila do supermercado ou no acesso a um estádio.

Mais do que nunca devemos, temos a obrigação, de dar verdadeira atenção a quem nos protege, aos poderes públicos.

Qualquer cidadão, cioso da(s) sua(s) liberdade(s), deve, e tem de estar atento às subtilezas da(s) respostas do(s) Estado (s).

 

A França, neste caso particular, lança-se em iniciativas legislativas que visam apertar a malha sobre terroristas.

Em potência, referenciados, seguidos, o que for.. .

Recuperam-se diplomas que pretendem, diz-se e escreve-se, agilizar a resposta do Estado e das suas agências a futuros/eminentes ataques terroristas mas as suas consequências práticas poderão ir muito além disso.

Assumem-se como ameaças a direitos e realidades há muito consagradas como são o direito à manifestação, o direito de deslocação e buscas a residências, por exemplo.

A inclusão da figura do “estado de emergência” na Constituição da República Francesa é disso perigoso exemplo, a meu ver.

A exceção que se torna regra.

 

O prolongamento do estado de emergência é uma ameaça ao nosso modo de vida.

A legislação existente, segundo constitucionalistas e especialistas em matérias de segurança, não prejudica a luta antiterrorista.

Mas acabámos de assistir à sua extensão por três meses.

 

As imperfeições e falhas políticas, de serviços de segurança, não são compensadas pela vigência, perigosamente longa, do estado de emergência.

Isto constitui mais um perigo para o modo de vida ocidental, caracterizado (ainda) por uma muito razoável dose de Liberdade.

Isto é uma mordaça.

Decisões políticas de assinalável latitude no seu alcance, tomadas “no calor do momento” deixam, não raro, muito a desejar e ainda mais a recear.

 

Eu, tu, ela, nós, estamos na linha da frente de dois combates que representam desafios urgentes e prementes à Liberdade que prezamos (e que tantos dão como garantida e indestrutível): de um lado, o terrorismo, movido a ódio, tentando instilar o medo nas nossas vidas e no nosso quotidiano, alterando a forma como vemos quem está ao nosso lado; por outro lado, as respostas dadas por quem investe em poder, com o nosso voto, e ameaça desequilibrar a sempre periclitante relação entre Liberdade e Segurança.

 

Post-Scriptum: se calhar não vivemos numa crise de valores. Ou não seríamos alvos.

Luaty Beirão e os 16 activistas que são “julgados” em Luanda dão-nos um sinal claro e valioso: há Valores e temos (mesmo) de os defender

 

Leya

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