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Da Guiné-Bissau: conversas para o Mundo, sobre o Mundo

 

Numa conversa sobre a atual situação política na Guiné-Bissau, um amigo disse-me que já era tempo de “sairmos” das ideias de Amílcar Cabral. Para ele é fundamental a criação de novos paradigmas, de novos quadros de ação política que possam fundar uma rutura com o “passado” e inaugurar um futuro que possa vestir os desafios da modernidade.

 

Achei curioso o posicionamento dele. Entender as ideias de Cabral como uma representação do passado é particularmente interessante, surpreendente e não deixa, certamente, de carregar uma série de ambiguidades e contradições.

 

Perguntei-me: será a Guiné-Bissau um país embarcado num tal processo de desenvolvimento onde a coabitação com ideais revolucionários – fundadores das nacionalidades guineense e cabo-verdiana – não é possível? De qualquer modo, naquele momento, confesso, não consegui esboçar uma resposta à altura. Fiquei calado. Ouvi com atenção.

 

Dias depois, num campo de futebol, em Bissau, fui surpreendido por uma improvável conversa entre adolescentes que, enquanto se equipavam, aproveitavam para debater os riscos de uma possível guerra entre a Rússia e a Turquia. Uns, de forma veemente, afirmavam que o abate dos aviões russos foi um ato traiçoeiro e pouco estratégico. Outros, enfatizavam o direito à defesa da integridade territorial por parte da Turquia. No meio dos argumentos exaltou-se – com aquela intimidade característica de colegas de escola – o tom apreensivo face a possibilidade de uma guerra à escala global.

 

Num primeiro olhar, podia parecer uma conversa completamente expetável, considerando toda a carga mediática em torno do assunto. No entanto, para mim, aquilo representava uma pequena amostra do futuro do meu país, que se apropriava da legítima ambição de se inscrever no diálogo do mundo, com o mundo, sobre o mundo. Aqueles jovens são uma representação viva de uma África que já fervilha na busca de uma voz no concerto desafinado das nações. Li no subtexto daquela discussão, a intuição de que o longe é perto o suficiente para nos fazer refletir. O longe faz-se sentir tão perto, ao ponto de clamar por um envolvimento cego de fronteiras e mundividente de humanidade. O global é, afinal, global. Uma guerra longe é, afinal, uma guerra perto. Em suma, a desgraça humana já não é perto nem longe; é, sobretudo, desgraça global.

 

O interessante é que toda esta ambição de falar o mundo sobre o mundo teve lugar num país cuja população ativa tem, em média, um nível de estudos inferior ao 4ºano de escolaridade, do ensino primário[1]; onde a taxa de analfabetismo é de 70% entre as mulheres e 40% entre os homens; onde, segundo as últimas estimativas, 23% de crianças e jovens, em idade escolar, nunca chegará a frequentar a escola; onde, dos 77% que têm possibilidades de aceder ao sistema de ensino, apenas 51% chega ao 9ºano de escolaridade[2].

 

Estes indicadores mostram a fatalidade de um país que não cria condições estruturais para a construção do seu próprio desenvolvimento. É, justamente, neste país que começam a germinar vozes que serão embriões de uma nova transformação social. A modernidade é paradoxal. Não chega a todos materialmente, mas chega a todos simbolicamente. E o símbolo, por vezes, é suficiente para romper barreiras e revolucionar contextos.

 

Pego nesta ideia para responder ao meu amigo. Afinal o que é Cabral? É uma estátua que observa pacientemente as chegadas e partidas do aeroporto Osvaldo Vieira? É uma imagem icónica, um Deus revolucionário cuja ostentação é sexy? Se assim for, então temos mesmo de “sair” de Cabral – pois seria a confirmação de um esvaziamento irreversível de uma das maiores figuras políticas do século XX.

 

Para mim, Cabral representa um sonho pragmático de mudança, uma proposta política de “pensarmos pelas nossas próprias cabeças e de andarmos com os nossos próprios pés”, na construção do progresso, da dignidade coletiva e da partilha de visões de futuro para a concertação de um humanismo renovado. Nós não podemos “sair” de Cabral,  simplesmente porque não chegamos a “entrar” verdadeiramente em Cabral. Somos hoje um país colonizado por uma cultura política especializada na busca de uma suposta caridade internacional e na reprodução endémica do subdesenvolvimento.

 

Num país onde parte substancial da elite política não quer ensinar, nem aprender e, muito menos, liderar processos positivos de mudança social, a mundividência é das principais armas contra o subdesenvolvimento. A conversa daqueles adolescentes é, no fundo, um anseio de mundividência que se traduz na rejeição de fronteiras de pensamento e na inversão da fatalidade impregnada na condição do africano empobrecido. O que começa a acontecer na Guiné-Bissau é a apropriação gradual da tutela do progresso, por parte de jovens sequiosos de aprendizagens e de ações transformadoras.

 

A roupa da modernidade traz-nos, justamente, a possibilidade de perspetivarmos mundos no nosso mundo e o nosso mundo nos diferentes mundos. Quando esta roupa for totalmente vestida, será a elite política a perceber que tem de mudar. Quando acontecer, provavelmente, procurarão referências para, como diria Cabral, pensar melhor para agir mais e agir mais para pensar cada vez melhor. Assim, certamente, teremos mais e melhores escolas; mais e melhores hospitais; mais e melhor comida; mais e melhor… vida.

 

O futuro é uma conquista!

 

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[1] RESEN(2015); ILAP ( 2010)
[2] RESEN (2015)

 

Leya

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