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Marketing político no Brasil: ousado ou só ridículo?

Há muitas maneiras de fazer propaganda política de forma clara, ponderada e coerente, sem que ninguém precise de sujar as mãos com os problemas e falhas dos outros. É quase um prolongamento das nossas vidas enquanto seres sociais: se nos preocuparmos muito com as faltas alheias, não teremos tempo para tratar das nossas. Ora, podemos considerar que o novo vídeo de propaganda política do candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Geraldo Alckmin, faz precisamente isso: pretende conquistar eleitorado através da mera exaltação dos defeitos de Jair Bolsonaro.

 

O que vemos e ouvimos no vídeo é mau, evidentemente; relembra, até, Donald Trump num dos debates presidenciais frente a Hillary Clinton, no qual este interrompe a fala da adversária para se referir a ela usando a expressão “nasty woman” (mulher nojenta). Não há dúvidas que as declarações de Jair Bolsonaro são absolutamente asquerosas, em todos os pontos de vista: não só defendem uma ideologia machista e violenta, como retratam a triste realidade do seu alinhamento político – igualmente machista e violento. Contudo, é importante perguntar: alguém ficou surpreendido? A resposta é, claramente, negativa. Provavelmente, não há nenhum brasileiro ou brasileira que veja este tipo de vídeos e se choque ao ponto de repensar o seu voto. Porquê? Porque quem pensa em votar no candidato do Partido Social Liberal (PSL), defende o que ele diz; e, para quem não contempla esse voto, não haverá nenhum motivo para passar a fazê-lo agora – uma vez que, repito, as declarações divulgadas neste vídeo não revelam nada de novo.

 

 

Esta lógica de ataque constante, que não é vigente apenas no marketing político brasileiro mas, também, noutros lugares do mundo, é levada ainda mais longe quando tudo o que envolve polémica se torna viral no país. Quem não vai querer ver um vídeo destes? Afinal de contas, trata-se de um candidato presidencial a maltratar mulheres, de forma nada filtrada e com palavras muito insultuosas (“vagabunda” e “idiota”, por exemplo). Como sabemos, estes são alguns dos ingredientes perfeitos para que o resultado seja um alcance viral. Ainda assim, fica o desafio para quem viu o vídeo até ao fim: uma vez que a película termina com a pergunta “Você gostaria de ter um presidente que trata as mulheres como Bolsonaro trata?”, experimente colocar, a seguir a essa frase e mentalmente, o apelo ao voto pelo candidato responsável por esta propaganda – “Vote em Geraldo Alckmin”. A verdade é que não teria sentido nenhum.

 

A política deveria ser um exercício construtivo e, neste caso, como em tantos outros que já vieram e que ainda vão chegar, é meramente destrutivo – sem qualquer acrescento que relembre, sequer, a existência de Geraldo Alckmin como candidato. Este tipo de sistema propagandista é um autêntico circo de feras, palavras que titulam uma das mais reconhecidas canções da famosa banda de rock português, Xutos e Pontapés.

 

De modo que a vida
É um circo de feras
E os entretantos
São as minhas esperas

 

Aqui e agora, quem espera é o povo brasileiro. Espera por uma vida melhor, por uma estabilidade financeira, por um dia a dia sem escândalos de corrupção na memória ou imagens de violência nas ruas. O povo espera e desespera, enquanto os candidatos se divertem no jogo do gato e do rato, na tentativa de perceber quem leva o troféu de “menos machista”, “menos corrupto” ou, simplesmente, “menos mau”.

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