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“Balada de um Batráquio” e o debate que ainda ninguém quis trazer

Leya

 

Tenho que falar.

 

Mais uma vez, a jovem e talentosa cineasta Leonor Teles arrecada um prémio, desta feita no Festival de Hong Kong, pelo seu trabalho, devido à sua ultima curta “Balada de um Batráquio”, que já havia vencido o Urso de Ouro no Festival de Berlim este ano.

 

Por todo o lado este feito é noticia. Ambos os Festivais (Berlim e Hong Kong) são festivais de elevada referência na área e é um motivo de orgulho para Portugal saber que tem jovens portugueses e portuguesas a serem internacionalmente reconhecidos pelo seu trabalho.

 

Mas esta curta diz-nos algo, e eu gostaria de falar da forma como se tem vindo a negligenciar a realidade das comunidades ciganas denunciada por essa mesma curta.

 

É denunciada cruamente a discriminação contra ciganos por parte de comerciantes. E ainda ninguém quis falar sobre isso até agora – no máximo umas ‘notas de rodapé’ a contextualizar o tema da curta, mas sem o mínimo interesse em de facto falar sobre o assunto. Em qualquer outra circunstância, seria caso para falar sobre os sapos e as várias formas de discriminação contra portugueses ciganos em Portugal, mas optou-se por não falar nada. (Já agora, essa ideia de que os sapos ‘afastam’ ciganos dos espaços onde se encontra? É uma crença ridícula. O que afasta ciganos dos espaços públicos é o racismo, não é uma suposta ‘sapofobia’, coitados dos bichos que não têm culpa…).

 

Eu mesmo já vi sapos de todas as formas e feitios, e quando perguntado pela razão de semelhante “objeto decorativo” as pessoas não têm o menor pejo em dizer “é por causa dos ciganos, dizem que eles não gostam”, como quem diz uma piada engraçada (disseram-me na minha cara com um sorrisinho divertido – sem a menor ideia de que sou cigano).

 

E sapos expostos com o intuito de manter longe ciganos existem em todo o tipo de espaço público: lojas, centros comerciais, cafés e restaurantes, até em hospitais (!) , centros de segurança social, e esquadras de policia, entre vários outros locais públicos que deviam por lei estar abertos e à disposição de todas as pessoas.

 

Mas este tipo de comportamento é aceite. E sobre isto, ninguém fala.

 

 

Considerem isto:

 

Nós ciganos temos de suportar todo o tipo de agressões ciganófobas sem a mínima consideração – e não pensem que procuro que se use o “politicamente correto”, essa máscara da xenofobia, o que quero aqui clarificar é que o desprezo e o menosprezo são tão grandes que não somos dignos do menor esforço para não nos ferirem.

 

A ciganofobia é tão aceitável em Portugal, que determinado comportamento ou atitude xenófoba e injusta para com as comunidades ciganas é justificada com a simples declaração “são ciganos”.

 

Havendo problemas, o desinteresse em resolvê-los instala-se na hora , mal se pronuncie “cigan…” (nem é preciso terminar a palavra).

 

Agora pergunto: tendo uma curta destas, com um tema destes, ganho prémios internacionais e sendo notícia a nível internacional, e mais a mais, denunciando um problema nacional que nos envergonharia a todos, não era mais que altura para debater o assunto da discriminação contra ciganos?

 

Em lugar disso, o que se viu? Os media procuraram reduzir a importância da curta ao prémio em si, sem debater o seu conteúdo e dando mais como uma curiosidade a ascendência cigana da realizadora. E isto nós vemos sempre e em todo o lado.

 

Outro aspecto que ficou dado nas várias reportagens foi que o sucesso da Leonor resultou em parte de ter ‘rompido’ com a cultura cigana, dada como algo abominável. Gostaria de aproveitar para dizer que o contexto pessoal de cada um é único. No meu caso, por exemplo, sou filho de pai e mãe ciganos, formei-me no ensino superior e trabalho na minha área. Como eu, há mais homens e mulheres ciganos que se formaram ou que estão a formar-se, e/ou que trabalham, em várias e distintas áreas, e que não precisaram ‘cortar’ com a sua cultura ou identidade cigana.

 

Isto para dizer que o “atraso” que se observa no seio das comunidades ciganas não é devido à “cultura cigana” como dão muitas vezes a entender, mas devido à cultura de exclusão social imposta às comunidades ciganas desde que chegaram ao Reino de Portugal há 500 anos, com um histórico de perseguição longo e continuado até aos dias de hoje.

 

O papel dos media é algo que por si só devíamos debater também, mas que não se debate.

 

Digam-me :

 

Onde é notícia a realidade das comunidades ciganas? Tem noção das dificuldades de acesso a educação, habitação, mercado de trabalho, saúde, por parte das comunidades ciganas? É isto culpa dos próprios? Quantos de vocês dariam emprego e/ou arrendariam casa a ciganos?

 

O feito da Leonor Teles é maior do que aquele que lhe querem dar. O feito dela não se limita a trazer um prémio para que Portugal se possa vir a orgulhar. A curta dela permitiu DENUNCIAR a ciganofobia existente por terras lusas e reparem bem como isso é tão aceitável que ninguém quis debater o assunto até agora.

 

Espero que mais do que congratularmo-nos por mais uma portuguesa a receber prémios internacionais, ou bater palmas por ser filha de pai cigano, possamos agora trazer para debate público a realidade das comunidades ciganas e a discriminação que sofrem. E finalmente, vermos alguma coisa a ser efetivamente feita, em prol de uma sociedade mais inclusiva e amiga das suas comunidades ciganas.

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