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Como acabar com o desmatamento da Amazónia? Brasil aposta em drones de última geração

A conservação da floresta Amazónica deveria fazer parte da agenda político-ambiental de todo o mundo. As (questionáveis) medidas que tentam combater o desmatamento ilegal do pulmão brasileiro não têm funcionado plenamente; este já é considerado um problema de longa data. Um estudo divulgado, em fevereiro, pela revista Science Advances revelou que o panorama atual em que esta se encontra é “quase irreversível”. A apropriação ilegal de terrenos, o corte clandestino de madeira, a monocultura agrícola, a mineração predatória e o avanço das zonas de pasto são os principais fatores que ameaçam sucessivamente este bioma. Apesar dos esforços políticos que – através de legislações ambientais – tentam travar este flagelo, o desmedido progresso económico tem atropelado a responsabilidade social.

 

Atualmente, quando existem suspeitas sobre um acampamento ilegal de madeireiros ou mineiros (garimpeiros) na região da Amazónia, podem ser enviadas frotas de aviões ou helicópteros para efetuarem a monotorização da zona. Ora, além desta operação acarretar consigo grandes custos, o ruído dos veículos aéreos alerta os criminosos, fazendo com que estes consigam fugir. Como impedir este desfecho? A resposta para esta questão pode estar nos pequenos e silenciosos drones: guardiões tecnológicos, capazes de captarem imagens em alta resolução, a qualquer hora do dia. Este tipo de tecnologia (mais barata e eficaz) permite que os dispendiosos alugueres de aeronaves caiam, restando mais recursos para investir na monitorização e vigilância da Amazónia.

 

Desde 2015 que o WWF-Brasil (World Wide Fund for Nature) tem trabalhado com veículos aéreos não tripulados, com a finalidade de incrementar o desenvolvimento tecnológico, em prol da conservação da natureza. O grande objetivo passa por testar este tipo de equipamentos e perceber como é que podem ajudar a monitorizar a biodiversidade; a supervisionar áreas protegidas; a recolher dados científicos e a vigiar a exploração dos recursos naturais. Para cumprir esse efeito, os drones já têm sobrevoado o céu brasileiro em situações de incêndios florestais, recolhendo e enviando informações às equipas responsáveis pelo combate aos fogos, em tempo real. Até agora, o balanço tem sido positivo.

 

Para o futuro preveem-se grandes conquistas científicas. Combater o desmatamento ilegal com ajuda de drones, a partir de 2019é apenas uma delas.

 

As etapas da jornada

 

O projeto Ecodrones nasceu de uma iniciativa entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), parte integrante do Ministério do Meio Ambiente, e da WWF-Brasil. A Coordenação de Fiscalização (COFIS) do ICMBio está, neste momento, a preparar-se para a fase de testes. No decorrer dos próximos meses, a equipa, liderada pelo coordenador André Alamino, irá explorar três supermodelos com características diferentes. Com que finalidade? Muito resumidamente: perceber como é que estes veículos podem contribuir para a gestão das unidades de conservação do país, com especial enfoque na Amazónia. Aprovar uma lei interna que possibilite a utilização de drones para esse efeito já em 2019, é a meta.

 

André Alamino, quando estava incumbido de vigiar a Floresta de Humaitá, plantada a sul do rio Amazonas, apercebeu-se que seria útil incorporar tecnologias que possibilitassem a modernização da fiscalização de áreas verdes protegidas, garantindo mais eficiência e segurança. “Graças às câmaras de alta resolução e infravermelho, os drones são capazes de registar imagens a qualquer hora do dia, sem que uma equipa de dez profissionais precise de se deslocar até ao local”, explicou o coordenador.

 

Com a ajuda do Programa das Áreas Protegidas da Amazónia (ARPA) foram adquiridos três equipamentos para a fase de testes. Comecemos por explicar as características de cada um deles: um dos drones a ser testado tem a asa fixa, assemelhando-se a um pequeno avião, munido com duas câmaras multifuncionais e está apto para atividades relacionadas com mapeamento. Os outros dois aparelhos têm asas rotativas e ambos possuem uma câmara ultra HD e infravermelho. Devido à sua constituição, estes dois últimos drones conseguem pairar sobre incêndios florestais e enviar informações em tempo real, para as equipas responsáveis. Além disso, conseguem calcular o volume de madeira angariado através do desmatamento ilegal – tarefa que ainda é realizada manualmente –, ajudando a rentabilizar o tempo despendido nesses levantamentos.

 

 

Imagem divulgada pela WWF-Brasil (Imagem: WWF-Brasil)

 

Além destes veículos de alta tecnologia, o projeto também terá ao seu dispor um notebook de alta performance. Este aparelho será o responsável por controlar os drones, durante a experiência, ajudando a processar as imagens recolhidas e a rodar os simuladores de pilotagem utilizados.

 

Numa fase inicial, estes veículos aéreos não tripulados irão ser testados na Reserva Biológica do Cachimbo e no Parque Nacional do Jamanxim, no estado do Pará. Avaliar o desempenho destas pequenas máquinas no terreno, será o principal objetivo. Para avançar em direção ao mapeamento da Amazónia, é necessário analisar os aspetos operacionais dos diferentes modelos das aeronaves, incluindo os seus sensores e a qualidade das informações recolhidas.

 

Todos os equipamentos, em fase de experiência, possuem uma grande versatilidade e poderão ser utilizados em diferentes missões. Através de pequenas modificações, é possível munir todos os drones com câmaras e outros sensores que possibilitem a recolha de alvos específicos. O baixo custo da operação e a facilidade para a execução de voos permitem a obtenção de imagens periódicas de boa resolução, possibilitando o acompanhamento sistemático das alterações da cobertura do solo.

 

 

Por enquanto, o Ecodrones ainda só conta com uma permissão da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para voar. Trata-se do drone Nauru 500, que tem uma autonomia de quatro horas de voo e um alcance de 80 quilómetros, sendo capaz de mapear, de uma só vez, 49 mil hectares, graças ao sistema de câmaras oblíquas. Esta aeronave já é utilizada pelo ICMBio na monotorização completa do Parque Nacional Pau Brasil – resquício da Mata Atlântica -, no estado da Bahia. Os outros dois aparelhos continuam a aguardar a autorização da Anac, podendo voar, numa fase de teste, numa área delimitada no interior de Goiás.

 

Convém salientar que a aplicação e a exploração da tecnologia, no cenário brasileiro, avançam timidamente. Por vezes, os desenvolvimentos e experimentos tecnológicos são realizados de forma isolada, especialmente porque a legislação que regulamenta a sua análise não é muito clara, especificamente quando abordamos o tema drones. Nesse sentido, o projeto Ecodrones está focado na construção de um cenário favorável para a utilização destas aeronaves, direcionada para a questão ambiental. Segundo Marcelo Oliveira, especialista do Programa Amazónia do WWF-Brasil, a utilização destes aparelhos não será para fins recreativos ou comerciais, acrescentando que “é preciso regulamentos diferentes, que possibilitem recorrer à utilização dos drones para conservar o património natural brasileiro”.

 

Além da regulamentação, Oliveira defendeu que é fundamental formar um corpo técnico, capaz e habilitado, para pilotar os equipamentos e realizar um planeamento que possibilite voos seguros e eficientes. “É nesta etapa que o grupo de cooperação está concentrando os seus esforços”, afirmou.

 

Resta concluir que conservar, proteger e vigiar serão as missões dadas aos novos guardiões da vasta Amazónia: os drones. A batalha contra o desmatamento ilegal passará a ser travada através destes equipamentos não tripulados, daqui a nada. A grande questão que se levanta é: Tecnologia versus Humanidade; quem vencerá?

 

 

 

 

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