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Estudos comprovam: as mulheres são mais sustentáveis que os homens

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Quando comparadas com os homens, as mulheres têm mais comportamentos sustentáveis. Não só agem em conformidade com essa ideologia com maior frequência, como são mais abertas e recetivas a cuidar do nosso planeta. Os motivos podem ser muitos, mas um dos mais polémicos — e bem construídos — assenta na questão do patriarcado instituído.

 

Dentro desse prisma, há duas leituras possíveis: aquela em que a mulher é mais green-friendly, preocupada com o coletivo e a natureza, devido aos papéis de mãe, educadora e cuidadora que a sociedade lhe “oferece”; e, também, aquela que apresenta o homem como resultado de uma masculinidade tóxica, cuja ótica perceciona os comportamentos sustentáveis como desnecessários e/ou femininos. Ambas as visões refletem o legado do machismo instituído. Uma vez que este afeta a construção identitária de cada um dos géneros de maneira diferente, é normal que as consequências que daí surgem sejam, por vezes, antagónicas.

 

Antes de aprofundarmos as causas e a construção de toda esta lógica, interessa perceber quais os fatores que fazem das mulheres mais ecológicas que os homens. Entenda os principais motivos que sustentam esta análise.

 

As mulheres deitam menos lixo para o chão e reciclam mais

Já não é propriamente segredo que os homens descuram, mais do que as mulheres, o tratamento do seu lixo. Além de se associar a preocupação com o meio ambiente a um mindset mais feminino, o que leva os homens a rejeitar a adoção dessa atitude, há outros motivos que justificam esse estado de “apatia” perante a questão. Um estudo comportamental feito pela BIEC (Beverage Industry Environment Council) demonstra que as principais razões apontadas por alguém que deixa os seus resíduos ao abandono, na natureza ou em áreas públicas, prendem-se com a preguiça e a falta de cinzeiros ou caixotes do lixo.

 

Felizmente, o estudo vai mais longe e clarifica as motivações que podem desenrolar este comportamento imprudente. Se a falta de conhecimento e a mera conveniência potenciam estes descuidos, há outros fatores (ainda) mais graves. A indiferença perante o tema e a irresponsabilidade são dois exemplos disso mesmo, também referidos pela pesquisa desenvolvida.

 

Em relação à reciclagem, a lógica comportamental vigente segue o mesmo padrão. Dado o maior afastamento dos homens em relação às questões ambientais, acaba por ser o género feminino a reciclar mais. Não é propriamente uma surpresa, tendo em conta os estudos supracitados, certo? Mas cá vai mais um, realizado pela Universidade de Essex, no Reino Unido. Através dos dados recolhidos, a pesquisa apurou que, no caso de pessoas que moram sozinhas, há uma diferença de 11% entre os géneros binários. Enquanto 69% das mulheres reciclam, apenas 58% dos homens fazem o mesmo. Mais de 4000 pessoas participaram neste estudo (2000 de cada género), além de 3000 casais.

 

As mulheres comem menos carne e são mais suscetíveis à mobilidade elétrica

(Imagem: Reprodução Unsplash)

Uma pesquisa estadunidense, que contou com a participação de mais de 14 mil americanos/as adultos/as, confirma um desapontante estereótipo: as mulheres são mais suscetíveis a comprar e a comer vegetais, enquanto os homens comem mais carne. A hiperligação supracitada volta a enfatizar que estas diferenças vão além do óbvio, relacionando-se com os papéis de género.

 

Se argumentarmos que as mulheres têm hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis porque se preocupam mais com a sua saúde e forma física, devemos lembrar-nos que essa não deixa ser uma preocupação partilhada com o género masculino. Afinal de contas, este é mais propenso a praticar exercício físico — o que também acusa uma grande preocupação com o corpo e o bem-estar.

 

O mesmo se passa com a mobilidade elétrica. As mulheres são mais propensas a adquirir um veículo elétrico do que os homens. Uma pesquisa desenvolvida pelas universidades de Sussex (Inglaterra) e de Aarhus (Dinamarca) afirma que esse facto é justificado pelo maior envolvimento das mulheres nas questões ambientais. O mesmo estudo defende, inclusivamente, que a revolução da mobilidade se fará através do apelo ao público feminino; este, certamente, irá tomar decisões de compra tendo o fator da ecologia em consideração.

As mulheres votam mais vezes a favor do meio ambiente e têm uma pegada de carbono menor

Por norma, a ecologia e as medidas de sustentabilidade concentram-se à esquerda quando falamos do espectro político. E quem vota mais de acordo com estas temáticas? De novo, são as mulheres. No entanto, temos que interpretar os dados com alguma prudência, porque há fatores de variação. Por exemplo, segundo um estudo incidente sobre a população canadiana e europeia, as mulheres nascidas antes de 1955 tendem a votar, com maior frequência, em partidos de direita do que os homens da mesma idade.

 

Se a mesma avaliação passar pelas camadas nascidas depois de 1955, são as mulheres que votam mais à esquerda. Isto significa que, além da influência dos papéis de género no entendimento político do mundo, a diferença geracional pesa. A religiosidade é apontada como o principal sustento do voto orientado à direita, no caso das mulheres mais velhas. No que toca às mais jovens — a nova geração de votantes —, as suas motivações de voto passam pela sustentabilidade. Estas mulheres têm uma ideologia mais progressista no que respeita às questões sociais, de género e do meio ambiente.

 

A juntar a isto, resta também saber que a pegada de carbono é menor no género feminino. Uma pesquisa sobre o consumo de energia, discriminado segundo os géneros binários e desenrolada junto da população sueca, norueguesa, grega e alemã, clarifica isso mesmo. Os homens gastam mais energia nas suas rotinas do que as mulheres.

Que conclusões podemos tirar?

Embora os estudos apresentados se concentrem em diferentes áreas do globo, a tendência é clara no que toca a conclusões. Há uma resistência masculina generalizada face às preocupações com o meio ambiente e o nosso planeta. Talvez o mais triste disso tudo seja o motivo que leva a este posicionamento.

 

Um estudo conduzido pela Scientific American apurou que a causa principal para a rejeição de um comportamento mais consciente e sustentável, por parte dos homens, se prende com a preocupação masculina de salvaguardar a sua identidade e papel de género. Parece absurdo, não é? No mínimo, trata-se de uma realidade que é difícil de ouvir — e de entender.

 

estudos que defendem a interligação entre a igualdade de género e as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Neste caso, numa relação de crescimento inversa: quanto mais igualdade existir, menos emissões são geradas. Essa demanda pela justiça social entre os géneros foca-se, primeiramente, nas oportunidades. Ou seja, se as mulheres se preocupam mais com o meio ambiente e, tendencialmente, votam mais a favor dessas questões, precisam de mais cargos de chefia e direção em posições de tomada de decisão.

 

Depois desta leitura dos factos, a interpretação que este tipo de estudos faz acaba por soar certeira. Se os homens são negligentes com o seus resíduos e resistem à prática da reciclagem porque associam esse mindset à feminilidade, então, de facto, algo está errado. Para combater essa visão, um dos caminhos passa pela desconstrução dos papéis de género. Além de ajudar o meio ambiente, essa mudança também ajudaria a sociedade, em geral.

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