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A Lusofonia começa por olhar-nos nos olhos

Foi em uma noite de domingo, terra usualmente dominada pela nostalgia do final de semana que se despede, que Aline Frazão convidou-nos a olhar para o futuro. Em um encontro singular para a música lusófona, a cantora participou do Misty Festival Lisboa e recebeu no palco Antonio Zambujo, Paulo Flores e Sara Tavares.  A escolha dos convidados não foi à toa. Juntos, os músicos iluminaram o teatro com o colorido que há na mistura musical de Portugal, Angola e Cabo Verde.

– Cada um tem uma identidade muito própria e uma presença extremamente marcante como artista, são três vozes que qualquer um reconhece. Mas ao mesmo tempo é possível ver uma linha que une a personalidade e a sonoridade de cada um enquanto cantores, pois nenhum deles faz uma música totalmente pura, são misturas de influências de vários sítios, o que faz todo o sentido dentro da lusofonia que procuramos – explica a anfitriã da noite.

António Zambujo fez a primeira participação, interpretando o tema Barroco Tropical.

– As parcerias têm que surgir naturalmente, que foi o caso deste concerto. Para mim, enquanto músico, só enriquece, faz crescer e faz com que descubra na minha música coisas que antes destas ligações não conseguia encontrar – revelou o músico em entrevista após o show.

Sara Tavares fez o público relembrar sabores com Lisboa Kuya. O primeiro encontro entre as duas cantoras aconteceu em maio, ao participarem do festival da Conexão Lusófona. Para Sara, as trocas em parcerias como esta vão além dos duetos:

– É mais do que música, partilhamos formas de ver o mundo: histórias de palco, da estrada e da vida de músico que vão para dentro do saco da inspiração, para serem usadas mais tarde ou mais cedo, nem que seja para servir somente como motivação – explica.

Com Paulo Flores, o encontro mais emocionante: fã e ídolo, frescor e história da música angolana a interpretar N’guxi, tema composto por Rosita Palma em kimbundu, uma das línguas nacionais do país, no primeiro ano após sua independência.

– Cresci no contexto complicado do nosso país, a ouvir sua voz e sua música. Quando me perguntavam “com quem gostavas de cantar?” eu respondia sempre: “Paulo Flores”.

Após passarem pelo palco, porém, os convidados não se recolheram aos camarins. Acomodaram-se na plateia ou no backstage para seguir acompanhando de perto o decorrer do concerto.

Pois esta moça “cheia de pensamento”, como bem definiu o músico angolano, conduziu a plateia de Luanda ao coração de Lisboa ao longo do espetáculo. É prestar atenção às letras das músicas para perceber os caminhos percorridos por Aline até aqui, as influências que constroem a identidade de sua música e os questionamentos que levam também o público a refletir em temas como “Primeiro Mundo”.

– Ela é atrevida de um jeito muito doce, mas não deixa de ser atrevida e pertinente – define Sara.

É em encontros como este que se dão os primeiros passos para consolidar as pontes que nos faltam. Para Aline, o desafio é transferir ao “mundo exterior” a integração já existente na cena musical lusófona:

– A lusofonia é um projeto diverso, já é colorido por si, e nele cabe tudo, até línguas que não são português, como o crioulo, e o kimbundu. A cena musical lusófona existe. A lusofonia, eu já não sei. É um caminho que estamos a tentar construir, e que entre os músicos vejo já estar assumido. Há uma partilha muito grande, uma relação intensa e uma influência mútua porque sentimos um caminho em comum, algo que queremos construir juntos, cada um dentro da sua identidade. Mas para a lusofonia como um projeto mais abrangente há ainda muito caminho pela frente. Porque a lusofonia, principalmente nos países africanos, não é só a língua portuguesa, temos outras línguas que devem ser preservadas e recuperadas. Existem ainda muitas pontes a construir para nos conhecermos. Acho que começamos por aí: por olhar-nos nos olhos. E depois disso já será mais fácil.

Zambujo reforça a importância das parcerias para a construção de uma identidade comum, enquanto Paulo Flores destaca o papel da arte como estímulo para concretizar o conceito.

– De fato há coisas que nos unem e que são muito importantes, como a origem, como a língua. Acho que a cultura lusófona está neste momento em crescente, há cada vez mais esta conexão, esta interação entre músicos de diferentes países com bons resultados, que são possíveis porque as ligações fazem sentido, surgem naturalmente e se encaixam à perfeição – pondera Zambujo.

– Este é um momento para sermos criativos. Acho que temos muito por onde nos inspirar, neste mundo moderno e tão devastador muitas vezes nas nossas expectativas e àquilo que queremos enquanto cidadãos deste mesmo mundo. Sinto que a arte pode contribuir como sempre contribuiu, e deve estar à frente indicando os caminhos e procurando uma nova sociedade para todos – estimula Paulo Flores.

A distância física também não pode ser esquecida, lembra Sara Tavares:

– Temos que quebrar esta barreira entre os continentes para intensificar as trocas. Falamos a mesma língua que o Brasil. Mas nós, portugueses, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses, moçambicanos, conhecemos muito bem a música brasileira, enquanto sinto que o povo brasileiro conhece muito pouco da música lusófona.

Para além de um encontro de musicalidades, o concerto teve também notas de despedida. É que para Aline, o encontro marca a despedida de “Clave Bantu”, primeiro disco da cantora, lançado em 2011.

– É um ponto de viragem desta experiência tão forte e partilhada com tanta gente. Começando o próximo ano já estarei a entrar em estúdio para gravar o próximo disco, por isso a importância deste concerto aqui em Lisboa, é uma espécie de fechar de ciclo. E não poderia estar mais bem acompanhada esta noite.

Quando questionada sobre o que podemos esperar do próximo trabalho, Aline vale-se de analogias da arquitetura para deixar pistas que só quem partilha de sua sensibilidade pode captar:

– Posso dizer que penso que esta noite dá muitas pistas sobre o que poderá sair. Por enquanto ainda estamos no projeto. A construção ainda falta: escolher os materiais, e como eles serão trabalhados. É bom pensar nesta ideia de edifício quando falamos em um novo projeto, a ideia é que seja mais sólido e que dê para abrigar muita gente.

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