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Malangatana, “O Pincel que se calou” há cinco anos

Leya

 

Quando de Moçambique o mundo pouco sabia, Malangatana Valente Ngwenya deu a conhecer através das mais belas cores mascaradas em obras de arte a história deste belo país da costa do Índico. Como quem percorre um caminho nunca antes trilhado, Malangatana foi valente, como o seu próprio nome comprova, e desbravou a mata das artes pelo mundo afora. Passam-se já cinco anos desde que o mundo testemunhou o seu último suspiro.

 

A CASA ONDE VIVEU

Muitas vezes estava a dormir, tinha sonhos de monstros, de que tinha mesmo medo. Não resistia, levantava-me e pintava…
— Malangatana
Estas palavras, que identificam os sinais de inspiração, estão escritas num quadro com uma fotografia antiga do mestre em uma das paredes de sua casa. De forma tímida, revelam o poeta que escrevia com o pincel. Pois, era isso que Malangatana era: um poeta que usava a pintura para exteriorizar seus sentimentos. Estas palavras são uma parte do enorme legado que se esconde na sua residência, sita no Bairro de Aeroporto, em Maputo. Além dessas, fotografias, excertos de poemas e diversas obras tornam aquele espaço singular.

(Imagem: Mutxhini Ngwenya)
(Imagem: Mutxhini Ngwenya)

Entramos em sua casa acompanhados pelo seu filho mais velho, Mutxhini Ngwenya, que nos saiu um perfeito guia turístico. Afinal, é nesta casa que ele também viveu e “bebeu” da arte do pai.

(Imagem: Mutxhini Ngwenya)
(Imagem: Mutxhini Ngwenya)

As telas e esculturas por todo o lado funcionaram como máquinas de tempo: a partir dessas obras o nosso guia recordava… Para o primogénito de Malangatana, o seu pai era-o de todos. Foi graças ao pai que espreitou o mundo das artes, mas o seu ponto fraco é outro: a fotografia.

(Imagem: Mutxhini Ngwenya)
(Imagem: Mutxhini Ngwenya)

Nesta casa enorme vive apenas a esposa, Gelita Mhangwana, quem ainda carrega na alma a dor de ter perdido o seu companheiro. Já não vê cor nas telas por ele deixadas, mas uma eterna saudade de um tempo que jamais voltará.

 

 

MATALANA: UM SONHO ESQUECIDO NO TEMPO

Apesar de ter pisado meio mundo, Malangatana foi também um homem fiel às suas origens e à sua terra natal Matalana, onde hoje, repousam os seus restos mortais. Ngwenya, o filho, também nos mostrou essa “catedral” edificada pelas mãos incansáveis do pai.

 

Terra batida e muito verde, onde as árvores e plantas respiram tranquilidade. Diversas obras deram-nos boas vindas: começando pela construção mítica de uma figura alegórica da região chamada Mudedelene – imagem que evoca o medo do desconhecido, que se parece com uma mulher que só existe da cintura para baixo. Segue-se um carrinho outrora exposto em Lisboa, onde se encontra representado o nguenya, ou crocodilo, em português. Vê-se também, depois de passar o Centro Cultural de Matalana, logo à entrada da casa, três obras moldadas de cimento, que por ali fazem toda e alguma diferença na paisagem.

 

Em vida, Malangatana fez de tudo para que este lugar que o viu nascer não caísse no esquecimento e fosse frequentado por pessoas de todos os cantos do mundo. E assim foi, combinado com eventos culturais diversos. É uma localidade onde corre o sangue do mestre. Local aprazível, talvez o melhor para estar em Marracuene, só paira o ar de simplicidade: ainda com sinais de uma natureza pura, a cor verde – um pouco por todo o lado – agrada olhos de qualquer visitante. Ainda assim, não deixa de ser uma paisagem que perdeu o brilho com a partida do seu mentor. Se não perdeu, não é e jamais será como antes.

 

Apesar da simplicidade, foi este o local escolhido por Malangatana para criar o Centro Cultural Matalana, com uma escola de música, centro de formação em vários ofícios, uma biblioteca, campo de jogos, e dormitórios – claras evidências de quem se preocupava em fomentar o turismo cultural.

 

Nesse local já funcionou a escola de música, decorreu o Festival Umoja com a participação de vários grupos de vários cantos do mundo, grupos de danças tradicionais, visitas escolares, e se formaram profissionais em vários domínios. Actualmente, o espaço é palco do Festival Marrabenta, o que ainda leva centenas de pessoas a conhecer o berço do mestre.

 

Este local é um dos seus maiores sonhos inacabados. Após cinco anos da sua morte, o centro cultural encontra-se quase que deserto. Se o sonho se foi com o dono, o tempo dirá. Passaram-se cinco anos da sua viagem sem volta, mas também é neste ano que celebraria, em Junho próximo, 80 anos se estivesse vivo.

 

Aos artistas que de suas mãos emergiram ficou um desnorte insubstituível, assemelhando-se a um viajante que perde a sua bússola. Amava a terra, seus homens e mulheres, seus filhos e netos, sua cultura e tradições: sua Matalana e seu Moçambique. Além de pintor, foi escultor, dançarino, poeta, cantor, actor e até político.

 

Noel Langa é um dos artistas plásticos moçambicanos que de certa forma seguiu as pegadas do mestre Malangatana. Foram colegas de carteira e viveram no mesmo bairro. É com ar triste que ele diz: “O mestre está triste”. Isso porque a sua obra ficou parada no tempo. Para Langa, as autoridades governamentais, o Ministério da Cultura para ser mais concreto, devia fazer algo para trazer a vida de volta ao Centro Cultural criado por Malangatana e transformar o lugar em uma instância turística, pois pela dimensão que o mestre teve, o património por ele deixado passa a ser não só de Moçambique, mas do mundo.

 

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(Imagem: Reprodução Memorial to Malangatana)

 

UM LEGADO ESPALHADO PELO MUNDO

A primeira exposição de Malangatana aconteceu em 1959, numa mostra colectiva na Casa da Metrópole, em Lourenço Marques. Ao longo de 55 anos de carreira, realizou mais de uma centena de exposições em 29 países de quatro continentes.

Malangatana deixou murais em espaços públicos numa dezena de países e está representado em museus por todo o mundo, bem como em inúmeras colecções particulares. Apaixonado também pelas letras, Malangatana publicou, em 1996 e 2004, livros de poemas que reúnem a sua obra poética desde os anos sessenta.

Muito mais pode-se dizer sobre este homem. Estaríamos a renegar a nossa própria história se o remetêssemos ao esquecimento. O destino da sua obra ainda é incerto, mas uma certeza existe: em suas telas, fica uma lição de humanidade.

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