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Mayra Andrade conquista plateias com “Manga”

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Entrou em palco e a sala aqueceu de imediato ao som de calorosos aplausos. Mayra Andrade abriu o concerto de 21 de fevereiro, no Moods, em Zurique, com Afeto, single do seu novo álbum — “Manga”. A cantora está em digressão desde meados de fevereiro e passou já por Lisboa, Berlim e Paris. Seguirá, nos próximos meses, pela Europa fora e também pela África, por cidades como Londres, Roterdão, Luanda, Praia ou Maputo.

 

Editado em 2018 e lançado no mês passado, este é um disco há muito aguardado —Lovely Difficult, o seu último álbum, saiu em 2013. Desde essa data, colaborações como Reserva para dois, dueto com Branko (ex-membro da banda portuguesa Buraka Som Sistema) ou Nha baby, com o cabo-verdiano Nelson Freitas, não passaram despercebidas do público.

 

“Manga”, cantado em português e crioulo de Cabo Verde, mostra agora o resultado destes cinco anos sem editar um novo trabalho. Tratou-se de um longo período que Mayra Andrade aproveitou, sem pressas, para experimentar outros caminhos e sonoridades, ousando misturá-las com conta, peso e medida aos ritmos das suas raízes cabo-verdianas, que desde sempre a identificaram. Afrobeat e apontamentos de eletrónica combinam-se, também, neste universo tropical de músicas altamente dançáveis e que fazem qualquer um gingar.

 

“Quantos cabo-verdianos há na sala?”

É uma pergunta clássica. Num dos vários momentos de interação com o público, Mayra tentou contar o número de conterrâneos na sala. “São umas dez pessoas”, concluiu. De seguida, fez uma confissão em tom de gracejo: “quando há cabo-verdianos nos meus concertos, não posso enganar-me a cantar as músicas em crioulo. Normalmente, quando as pessoas não percebem, posso inventar um pouco as letras…”.

 

A sala estava cheia e ondulava ao sabor dos sons quentes vindos do palco, numa noite fria de inverno. Ainda que fosse o concerto de apresentação do novo álbum, não faltaram alguns dos seus clássicos, como Tunuka, Lua ou Ilha de Santiago, rejuvenescidos com novos arranjos para a ocasião. A certa altura, aconteceu um problema técnico e houve um momento de pausa. Em poucos minutos a inquietação foi atenuada pelo desembaraço da artista, que brincou com a situação: “agora tenho que contar anedotas… não sou boa nisso. Tenho má memória, sou como um peixe — um peixe vermelho. Sou péssima com nomes de pessoas, tenho má orientação, má memória. Nem sei como memorizo as letras das canções”. O contratempo resolveu-se e a banda prosseguiu após se ouvir um “ça marche” da cantora para os seus colegas de palco.

 

“Manga” — influências exóticas

“É uma canção de amor, romântica. Sobre uma relação à distância”: assim descreveu Mayra Andrade o single que dá nome ao novo álbum. “Manga” foi recebido com muito entusiasmo pela plateia e foi decerto um dos momentos altos da noite. Não faltaram Tan Kalakatan, Kodé, Segredu, Pull Up ou Vapor di Imagrason, que dedicou aos imigrantes presentes na sala.

 

 

O encore pôs o público suíço a vibrar, enquanto Mayra Andrade improvisava um refrão sobre Ricola, os famosos rebuçados suíços para a tosse — “Le vrai bonbon de la Suisse”, cantou. O público foi ao rubro e, por meio de forte e insistente aclamação, pediu mais. O grupo voltou para um segundo encore e chegou, então, a vez de algo mais tranquilo, para embalar a euforia que abundava na sala. “Estou muito relaxada hoje, já repararam? Não acontece frequentemente. Quer dizer que estou muito, muito cansada, mas muito feliz”. Procurou acalmar a casa e despediu-se com Guardar Mais (letra da cantora e compositora portuguesa Sara Tavares, de ascendência cabo-verdiana), terminando o concerto com o reconfortante “não há dor que resista ao baloiço da vovó Eugénia”.

 

“Obrigada! Merci! Thank you!”. No decorrer da atuação, Mayra Andrade agradeceu em português, em francês e em inglês. Falou várias vezes em crioulo de Cabo Verde pelo meio, respondendo aos fãs que lhe pediam para cantar determinadas músicas.

 

A cantora nasceu em Cuba e já viveu no Senegal, em Cabo Verde, Angola, Alemanha, França e Portugal. Ela própria é o resultado de uma grande mistura de influências, que vão da bossa nova ao jazz, e isso reflete-se claramente na sua música. “Manga”, o seu quinto disco, mostra essa fusão de ritmos e indica uma carreira musical em franca ascensão.

 

 

Autoria: Rita Guerreiro, colaboradora da Conexão Lusófona. Licenciada em Audiovisual e Multimedia, pela Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa (ESCS). Desde 2016, exerce o cargo de editora do portal Magazine Berlinda.

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