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Afinal, qual é o problema da nudez nos museus?

Quero apresentar-vos um teorema. Matematicamente, este conceito representa uma afirmação cuja veracidade pode ser comprovada através de uma série de outras afirmações, ou teoremas, já comprovadas. Vou atrever-me a seguir a mesma lógica para esboçar um modesto teorema social: o da nudez. Se é certo que o corpo nu levanta, de uma maneira geral, (quase) sempre algumas polémicas, é também certo que, se isso acontece, temos algum problema com ele enquanto sociedade. Infelizmente, e nos casos mais gritantes, temos assistido a algumas tentativas de “limitar” a nudez como forma de expressão artística – tanto em contextos representativos como performativos.

 

Vejamos alguns exemplos

 

Museu de Arte Contemporânea de Serralves (Porto, Portugal): Este é o exemplo mais recente desta breve lista (que, acreditem, poderia ser praticamente interminável se nos perdêssemos nos inúmeros relatos que já existem sobre casos do género). Aconteceu em setembro de 2018 e o artista “culpado” é o fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989). O museu recebeu a exposição “Robert Mapplethorne: Pictures”, concebida de raiz para Serralves, com a curadoria daquele que era, na altura, o diretor artístico da instituição (João Ribas). No entanto, a administração do museu decidiu restringir o acesso do público menor a certas peças, consideradas pela mesma de teor sexual explícito ou sadomasoquista. Este ato resultou num pedido de demissão de João Ribas, que antes havia garantido que não haveria qualquer tipo de “censura” ao trabalho do fotógrafo. No passado, o trabalho de Mapplethorpe já havia sido acusado de obscenidade, ao ponto de levantar grande polémica – no entanto, esse passado foi há quase 30 anos.

 

Art Commons (Calgary, Canadá): A polémica é quase tão recente quanto a portuguesa, mas esta ocorreu com um/a artista transgénero/a, Beck Gilmor-Osbourne, e com uma instalação de vídeo em vez de imagens estáticas. Em suma, o centro de artes canadiano decidiu sugerir a Beck que editasse a sua peça ou, então, esta seria removida. O/A artista recusou-se a fazer quaisquer alterações, tendo em conta que não viu razão para tal, e optou por ver a sua instalação retirada. A atitude da galeria surgiu após algumas denúncias de nudez e profanidade, relacionadas com o facto de o vídeo “A Thousand Cuts”, a obra em questão, conter uma imagem (que, segundo Beck, não dura mais do que três segundos) de uma mulher nua com uma prótese peniana.

 

Museu de Arte Moderna (São Paulo, Brasil): Bem, neste caso até a expressão “pedofilia” foi usada. Corria o ano de 2017 quando, neste museu paulista, uma criança interagiu com Wagner Schwartz, um artista carioca que aí se encontrava a apresentar “La Bête”, uma performance que envolvia a sua completa nudez. A interação foi captada em vídeo e partilhada nas redes sociais; isso bastou para incendiar o tema e, na altura, torná-lo na polémica nacional do momento. A criança tinha quatro anos e, como o vídeo permite ver com toda a clareza, o seu contacto com o artista – que, além de nu, se encontrava deitado no chão – foi supervisionado por quem a acompanhava e, mais importante, não envolveu qualquer ação por parte do artista (o que, por si só, deveria invalidar qualquer conversa sobre abuso sexual ou coisas do género). A menina agiu com total inocência, como qualquer criança da sua idade agiria (curiosa e sem perversidades a correr-lhe pelo pensamento). A performance não tinha qualquer intenção sexual ou conceito erótico. O problema foi gerado apenas pelo facto de o artista estar sem roupas.

 

Museus Capitolinos (Roma, Itália): Em 2016, o presidente do Irão – Hassan Rouhanideslocou-se até Itália para reunir com o primeiro-ministro do país, Matteo Renzi. Um dos locais de visita do presidente iraniano foi o Musei Capitolini (Museus Capitolinos, em português – no plural porque, na realidade, representam um conjunto de palácios romanos que contêm uma vasta coleção de arte). Como resultado deste itinerário, alguém decidiu cobrir duas esculturas presentes nos Museus, com caixas gigantes, apenas e só porque as figuras estavam nuas. Esse alguém, certamente, temeu que o presidente iraniano e a sua delegação ficassem ofendidos com este tipo de exposição. Felizmente, e ao contrário das outras, esta história é um pouco mais bem-humorada porque as estátuas em questão não costumam estar cobertas – e só o foram com o objetivo de evitar uma possível polémica ou um problema diplomático. Não deixa de ser triste que essa seja uma preocupação nacional, por parte da  Itália ou de qualquer outro local, aquando da passagem de um governante externo pelo seu país e pelos seus espaços artísticos – principalmente tendo em conta que, antes, a nação italiana havia tido o mesmo comportamento durante a visita do príncipe de Abu Dhabi.

 

A relação com o “nosso” nu

 

Um dos exemplos mais ilustrativos do nosso desconforto face à nudez prende-se com o tipo de atitude que levamos quando temos o corpo totalmente exposto. Tapar a genitália e cobrir os mamilos (este último, no caso feminino) são dois comportamentos muito expectáveis de alguém que se sente vulnerável com a nudez – e vulnerabilidade é precisamente do que estamos a falar. Num artigo de opinião escrito por Aline Valek, escritora e ilustradora brasileira, podemos ler que “sem as roupas, que são proteção, mas sobretudo linguagem (ainda que inconscientemente, a gente se comunica através dos pedaços de pano que nos revestem), o corpo nu esfrega em nossas caras o fato de que somos carne e pêlos, não muito diferente de outros animais”.

 

Além disso, o nosso sentimento de desconforto relaciona-se ainda mais com a nossa vivência em comunidade, na qual são esperadas certas “limitações” e “esconderijos” como resultado de uma série de constrangimentos sociais – e, nesta questão, podemos facilmente concluir que a mulher tem a vida mais dificultada e escrutinada, de maneira geral. Quase parece que a roupa serve para tapar quando, na verdade, foi concebida para proteger; agora, tanto tempo depois de se ter tornado numa “obrigação” desta nossa vida civilizada (pois, pois…), a nudez tornou-se numa ideia praticamente inconcebível, tirando, claro, no meio artístico e no nicho nudista que a promove.

 

Aline concebe algumas afirmações fortes, de grande ligação com a realidade, e que partem para outras problemáticas associadas ao corpo nu: nomeadamente, a exploração do mesmo como produto, principalmente como produto sensual e sexual – que, claro está, dá lucro. Essa ideia do corpo nu como “mercadoria” também acaba por mascará-lo, maquilhá-lo, produzi-lo e “melhorá-lo” de uma maneira que nos desliga e desassocia dele. Mais uma vez, fugimos da verdade e da vulnerabilidade, sendo que essa fuga serve apenas para alimentar o pudor e a desnaturalização de algo que é do mais natural que nos compõe.

 

Imagem: Reprodução Pierre Best

A autora brasileira acerta em cheio quando aponta que esse apelo sexual, que tanto contamina a forma como olhamos o corpo nu, como algo que serve para “desviar o olhar da nossa própria mortalidade, animalidade, vulnerabilidade”. E isso não acontece apenas quando vemos o corpo alheio; na verdade, também já contaminou certos aspetos da forma como olhamos para a nossa própria nudez. Vejamos o exemplo do biquíni e da roupa interior para as mulheres: estes dois tipos de vestuário cobrem, mais ou menos, a mesma parte do corpo de cada uma, no entanto, são vistos de formas completamente diferentes. Na praia, não há qualquer problema em usar o biquíni junto dos amigos e amigas, familiares e desconhecidos/as; mas o simples ato de passar em frente de alguém de roupa interior, mesmo em casa, já não cai tão bem. Claro que isso depende do grau de confiança que existe entre quem está em trajes menores e quem a vê, mas esse não é o único fator que faz variar a resposta perante esse momento – porque nem toda a gente que nos vê de biquíni nos pode ver de roupa interior.

 

Porque é que estar de roupa interior, de maneira geral, é mais constrangedor do que de biquíni? Racionalmente, não faz sentido; por isso, o que o justifica nasce apenas e só do campo social. O mesmo acontece com a amamentação, um tema desnecessariamente polémico e que incomoda muitos olhos – apenas porque uma mulher tem a mama “de fora”. A sua exposição, neste caso em específico, acontece por um bem maior: alimentar o/a bebé, que tem fome. Se a mama feminina não fosse objetificada e pensada como sexual, qual seria o escândalo da amamentação em público? Nenhum. Seria uma coisa perfeitamente normal.

 

Concluindo…

 

Afinal, qual é o problema da nudez nos museus?: essa é a pergunta errada. O que acontece nos museus é o reflexo de toda a vivência social. Por isso é que os naturistas são um grupo estigmatizado e as praias de nudistas são referidas como sugestão anedótica entre amigos/as; por isso é que as pessoas por detrás das inúmeras  instituições artísticas pensam duas, três ou quatro vezes antes de assinarem a curadoria de um/a autor/a que explore o nu – ou, então, não pensam assim tanto, mas depois limitam o acesso do público à exposição, como aconteceu no caso da Fundação Serralves; por isso é que a nudez é, não raras vezes, mercantilizada e floreada, como se existisse apenas incompleta na sua origem.

 

Estas polémicas geradas em museus não são casos à parte, que acontecem fora dos limites da sociedade; são uma continuação do modelo social, no qual vigora um pudor generalizado face à questão da nudez, seja ela alheia ou própria, real ou representada. Assumir este problema será o primeiro passo para que se gere um debate público, sendo que, claramente, este deve ser focado em muito mais do que na “nudez no contexto artístico”.

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