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A limitada influência das redes sociais nas eleições portuguesas

Os portugueses foram às urnas no último domingo para eleger Marcelo Rebelo de Sousa seu novo Presidente, com 52% dos votos. No entanto, mais da metade dos eleitores registrados deixou de votar – em Portugal o voto é facultativo. Além da desmobilização, chama a atenção o baixo investimento, e até um certo desprezo, dos principais candidatos em relação à campanha nas redes sociais digitais.

 

Desde 2008, com a vitória de Barack Obama apoiada em uma sólida estrutura de campanha on-line, que as redes sociais digitais têm recebido uma atenção crescente dos partidos e políticos interessados em aproveitar seu potencial em disputas eleitorais – fenômeno que ocorre em boa parte das democracias do mundo ocidental.

 

A influência das redes sociais nas eleições tem sido crescente mesmo em países com baixos índices de acesso à internet. Ainda que não tenham suplantado a TV, em termos de relevância na comunicação com o eleitorado, as plataformas digitais vêm cumprindo um papel complementar de mobilização e arregimentação de militantes cada vez mais destacado.

 

Além disso, as redes sociais funcionam como um “termômetro” importante para a aferição de temas, mapeamento de grupo de interesses, difusão de discursos e mobilização de militantes. Em 2014, nas eleições presidenciais no Brasil as redes sociais contribuíram, inclusive, para o clima de polarização política que se deu, em especial, na disputa do segundo turno.

 

Mas, se no Brasil e em diversos países do mundo, as redes sociais têm despertado, cada vez mais, a atenção das campanhas eleitorais, em Portugal o clima parece ser outro.

 

O presidente eleito, por exemplo, praticamente desprezou a campanha nas redes sociais. Apostando em um discurso que preconizava uma campanha de “baixo custo”, o candidato dispensou qualquer tipo de presença massiva e organizada nas redes sociais. O comitê de Marcelo Rebelo de Sousa investiu em um site e um aplicativo sem sequer criar uma conta oficial no Facebook.

 

Talvez, o trauma de José Sócrates em 2009 ajude a explicar o fenômeno. No embalo da campanha de Obama, Sócrates chegou a contratar a mesma empresa que havia atuado na eleição do presidente norte-americano. Criou diversas ferramentas e canais de mobilização, mas os resultados pífios acabaram expondo o alto grau de desmobilização de sua campanha.

 

O fato é que as redes sociais refletiram a desmobilização eleitoral dos portugueses e não parece ter havido influência relevante das novas mídias no resultado do pleito realizado no domingo.

 

Afinal, o concorrente mais bem sucedido na campanha digital foi Paulo de Morais. Sua página com mais de 50 mil curtidas no Facebook está bem à frente de seus adversários em termos de audiência na rede. Seu discurso anti-corrupção certamente contribuiu para animar setores médios que se manifestam nas redes sociais. Porém, nas urnas o resultado foi bem distinto e o candidato conquistou apenas 2% dos votos no último domingo.

 

Durante a campanha foram poucos os momentos nos quais os debates nas redes sociais “esquentaram”. Um dos poucos episódios de maior tensão nas redes durante a campanha se deu por ocasião de uma gafe cometida pela candidata do bloco de esquerda, Marisa Matias, ao falar sobre futebol, o que também não parece ter tido efeito significativo no seu desempenho – o melhor de toda a história do Bloco de Esquerda em eleições presidenciais.

 

É claro que a crise da política portuguesa se fez sentir nas campanhas digitais. Evidentemente, a web não conforma um mundo à parte e está condicionada pelos movimentos reais da sociedade. Com uma eleição desmobilizada e com o descrédito crescente dos partidos é compreensível a baixa adesão do eleitorado aos estímulos que vinham das redes sociais. Mas, é provável que tenhamos outras motivações para a desmobilização em meios digitais.

 

Especialistas destacam a falta de interatividade e de criatividade por parte dos principais candidatos. Ter presença nas redes sociais foi muito mais uma forma de se apresentar como alguém sintonizado com os “novos tempos” do que propriamente um esforço para sensibilizar e conquistar eleitores.

 

O baixo investimento dos partidos nas plataformas digitais, a desmobilização dos jovens, o conservadorismo do discurso dos principais candidatos devem ter tido um papel importante para a tímida repercussão efetiva da campanha eleitoral nas redes sociais. E, talvez, uma certa desconfiança dos portugueses em relação aos debates travados nos meios digitais tenha tido alguma influência.

 

Entretanto, dada a alta adesão dos portugueses às redes sociais digitais – mais da metade da população tem conta no Facebook, por exemplo – esse pode ser visto como mais um sintoma da crise de representatividade que atinge os partidos, não somente em Portugal. E é importante perceber que os processos eleitorais tradicionais pouco contribuem para sua superação.

 

 

Leya

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