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Café de Timor-Leste: raro e um dos melhores do mundo

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A flutuar nas águas do sudeste asiático encontra-se um dos países mais jovens do mundo: Timor-Leste. Apesar de ter sido proclamado como uma República Democrática, este continua a conviver com uma espécie de legado monárquico. Por lá, o café é considerado o príncipe áureo da agricultura timorense. Cobiçado mundialmente, este elixir conta com mais de um século de existência e, ainda hoje, é encarado como a maior fonte de rendimento económico e o principal produto exportado.

 

Fruto de um cruzamento natural entre a variedade das plantas robusta — espécie menos suscetível a pestes e muito resistente à ferrugem (principal doença que devasta as plantações de café) — e arábica — uma das variedades mais apreciadas pelos “cafeólicos”—, o híbrido de Timor-leste ocupa o pódio da singularidade cafeeira.

 

Devido ao cruzamento botânico, improvável e completamente espontâneo, a reputação do café timorense — que mescla os cromossomas de duas plantas distintas: uma como 22 (robusta) e outra com 44 (arábica) — é perpétua. Esta, além de ter um valor histórico, é única no mundo.

 

Graças à sua descoberta no século XX, na década de 60, pode ser clonada, permitindo a melhoria das plantações de café e munindo-as contra o fungo da ferrugem. Ou seja, foi a planta original timorense a incubadora de todas as sementes híbridas, espalhadas pelo globo, resistentes a esta praga.

 

Nos dias que correm, as plantações da variedade de café deixaram de ser exclusivas das regiões montanhosas de Timor-Leste. O híbrido passou a ser cultivado em todo o mundo. Ainda assim, o fraco volume de pesquisas científicas centradas no mesmo tem colocado em risco muitos dos progressos alcançados.

 

A (tímida) reivindicação da herança cafeeira

 

Segundo os dados da  Slow Food International — uma Organização Não Governamental (ONG) —, cuja principal missão passa pela defesa da alimentação e produção sustentáveis, em prol da desindustrialização, o café timorense corre sérios riscos de se extinguir. A falta de pesquisas sobre as características genéticas das plantas originais é apontada como o principal potenciador.

 

No rescaldo da invasão indonésia de 1975, muitas das plantações híbridas foram abandonadas. Atualmente, continuam a crescer num estado semisselvagem, longe da vista treinada da ciência e do investimento público.

 

Basta uma pequena pesquisa para percebermos que o café é fundamental para a economia do país asiático — quase metade da população depende exclusiva e financeiramente deste produto. Contudo, a falta de interesse dos mais jovens em criarem um negócio dentro da indústria cafeeira, aliada à popularidade dos cafés industrializados e à parca investigação das potencialidades do híbrido, têm colocado a herança timorense em risco.

 

Com o intuito de contornar a insegurança do cenário atual, no decorrer deste ano (2019), o governo timorense manifestou interesse em concentrar esforços, em prol da fomentação da produção de café. Até 2020, as 10 mil toneladas de produção anual deverão duplicar, situando-se nas 20 mil. Além do aumento do volume, serão tomadas medidas que garantam uma maior qualidade do produto, tornando-o mais rentável nos mercados internacionais.

 

Famílias e montanhas de café

 

Todas as atividades agrícolas em Timor-Leste assentam numa estrutura familiar. As plantações de café não são a exceção. Nascem nas encostas das montanhas timorenses, com a ajuda das técnicas rudimentares e das mãos dos agricultores.

 

O volume de produção é baixo e a gestão, assim como a coordenação do cultivo, são pontos a melhorar. As incertezas sobre as propriedades dos terrenos e o impacto das alterações climáticas têm diminuído as perspetivas de crescimento futuro. Consequentemente, os lucros obtidos são diminutos, colocando muitas famílias no limiar da pobreza.

 

As pequenas monoculturas tornam o negócio sustentável. Não se pratica a lógica de produção massificada e o recurso a maquinaria é baixo. Processa-se a maior parte do café de forma húmida: escolhem-se os grãos a dedo e remove-se a polpa; depois, estes são mergulhados em água (durante um período de 20 a 30 horas), passando, posteriormente, por um processo de secagem natural (ao sol) ou artificial (no lume). Este processo de “café lavado” torna os grãos mais limpos, conferindo-lhes um melhor aspeto e uma qualidade quase que exclusiva.

 

Graças à implementação do novo programa governamental de incremento, estima-se a mudança de ventos — que sejam capazes de levarem o “barco cafeeiro” a bom-porto. Afinal de contas, o híbrido de Timor já angariou o selo de singular; falta apenas catapultar a marca e colocá-la (literalmente) na chávena do mundo.

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