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Coca, o Faray Sem Mobile

O universo musical angolano é dominado pelo semba, a kizomba, o hip-hop, e, claro, o kuduro. Os artistas melhor sucedidos e que passam mais vezes na rádio invariavelmente cantam um destes géneros, recebem apoio estatal e são presenças assíduas nos diversos shows promovidos pelas conhecidas casas de espectáculos do país. Muitas das vezes, o elenco de tais shows é repetitivo; há vezes em que a rádio também se torna repetitiva. Os artistas são os mesmos, a qualidade de música idem.

Mas de vez em quando surge uma voz alternativa, com um conceito diferente e uma maneira diferente de sentir e criar a música. Uma destas vozes alternativas que surgiu no panorama musical angolano é o Coca, Faray Sem Mobile.

O que mais gosto no Coca é a sua originalidade, e a maneira como ele cria um universo sonoro só dele. A primeira vez que ouvi foi em Dezembro de 2009 enquanto, por qualquer razão, pesquisava sobre musica electrónica/neo-soul angolana. Deparei-me com a sua página Myspace e carreguei no Imagina Só. Foi amor a primeira audição. É talvez a música mais conhecida do Coca e a introdução perfeita a sua maneira de fazer música. É quase impossível não se deixar levar pela serenidade da voz do Coca e a paz que emana daquele ritmo tão difícil de classificar.  O que será? Afro-soul? Chilled Neo-afro-soul com elementos de hip-hop? Afro-jazz com características de blues e electrónica? Não importa e nem quero saber…mas importa realçar que a música foi crescendo de popularidade e em 2010 apareceu numa mixtape da label portuguesa Enchufada.

Mas é necessário uma boa conexão de internet para se puder usufruir dos presentes musicais do Coca. É que o mano nunca lançou um álbum; quem já teve o prazer de o conhecer sabe que o Coca é de trato fácil, amigável, “low profile”;  que não é muito de “aparecer” e de querer fama a todo custo. Não quer, nem de perto nem de longe, ter aquele tipo de stress que se segue após relacionamentos com editoras e labels. Quer ser dono da sua música e da sua criatividade. Por isso é que as pérolas do Coca são disseminadas via mixtapes no SoundCloud e campanhas no Facebook, de amigo para amigo, partilhadas por  todos aqueles que apreciam a sua arte.

E foi assim que, no fim do ano passado e principio de 2012, o Coca entrou num período de criatividade prolífica e partilhou uma música nova todas as sextas-feiras. Chamava-as de 6tacool. Convidou outros artistas angolanos e não só, também houve espaço para nomes como o 7Xagas, a Marisa e o Milton Gulli, o Prince Wadada, o Nikolas, entre outros. A qualidade das músicas era de um outro nível. Entre as minhas preferidas estão O Ano Q Vem, Apaixonado Jovem!!!, O Mambo, e So Sou Faray Ninguém Acreditou. Mas o catálogo é extenso e vale muito a pena explorar; não parem por aí.

Músicas como O Ano Q Vem e O Mambo são das mais originais que ouvi saindo do forno de criatividade que é a cidade de Luanda. Que lufada de ar fresco. São músicas para serem ouvidas solitariamente, a dois, ou mesmo em grupo restrito. Não são músicas para festas, mas sim músicas para serem ouvidas depois de um dia longo no salo* ou mesmo para serem dançadas a dois, de leve e lentamente.

A música alternativa angolana está de boa saúde e recomenda-se.

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