Cultura

Derrubar estereótipos: conheça 10 livros infantis que celebram a diversidade

5 min

A educação abarca os atos de instruir, polir e disciplinar. No seu sentido mais amplo, abrange os costumes e os valores de um determinado núcleo social, transferidos de uma geração para a seguinte. É um conceito aberto, que se vai moldando aos contextos comunicativos e que está em constante mutação. Através das experiências individuais, expande-se e molda-se às tendências urbanas, deixando-se influenciar pelas nuances culturais.

 

Nos dias que correm, o ato de educar tem muito que se lhe diga. É iniciado na infância e é coordenado, normalmente, pelos pais e pelos familiares mais próximos de uma criança. Nesta fase, são transferidas crenças e ideologias, responsáveis por munirem os mais pequenos com as ferramentas sociais necessárias. Apesar de sermos considerados, numa primeira instância, “tábuas rasas”, assim que entramos em contacto com modelos semelhantes, passamos a desempenhar um papel essencial: o de atores sociais. Desta forma, tudo aquilo que apreendemos, ao longo do nosso crescimento, será espelhado no modo como (inter)agimos.

 

O ser humano movimenta-se em comunidade, expandindo o seu grau de aprendizagem, consoante os estímulos que vai recebendo. Ora, como a sociedade é formada por um conjunto de indivíduos — repletos de particularidades —, a sua fórmula não é fechada. Esta evolui, assim como os seus respetivos valores morais. Consequentemente, as matrizes educacionais também vão sofrendo alterações. Por isso, o que ajudava a definir as bases de uma boa educação há 30 anos, expirou nos tempos modernos.

 

A pluralidade, a diversidade e a igualdade são, cada vez mais, as palavras de ordem da educação de hoje. Orientar as crianças para a aceitação da diferença é fundamental, incutindo-lhes princípios sobre empatia e respeito. Desta forma, perseguindo o objetivo de lhe facilitar a tarefa enquanto tutor parental ou educativo, selecionamos 10 livros infantis e pedagógicos. Estes, além de conterem estórias repletas de pormenores, ecoam mensagens essenciais, capazes de fortalecerem a autoestima e o emponderamento das crianças.

 

Como educar, sem semear diferenças?

 

Explicar a uma criança, livre de preconceitos e estereótipos, que o mundo não é monocolor, é muito mais fácil do que imagina. Estas, numa primeira fase, são apenas recetáculos vazios, dispostas a recolher o máximo de informação possível para, posteriormente, desabrocharem. Por isso, se está disposto a informar os seus rebentos sobre a diversidade mundana, esteja atento e arranje tempo para narrar. Reunimos estórias de educar — em vez de encantar — que celebram a igualdade de género; a monoparentalidade; a diversidade étnica; o livre arbítrio; e a beleza de ser-se diferente.

 

Nesta seleção de narrativas, não existe espaço para princesas que casam apenas com príncipes, para convencionalismos obsoletos ou para ilusões cor-de-rosa. Em vez disso, temos contos reais, repletos de personagens curiosas, que não necessitam de rótulos genéricos ou superficiais para enfrentarem a realidade. Tudo isto porque — convenhamos — a vida é múltipla e precisa de ser compreendida em todas as suas dimensões.

 

A história de Ferdinando

 

A primeira versão do livro foi lançada em 1936. Hoje em dia, é uma das referências da literatura infantil. É da autoria de Munro Leaf e contém ilustrações de Robert Lawson (tem um custo de 13,00 euros) (Imagem: eBook )

Resumo: é um livro pacifista e antibélico, contando já com mais de 60 traduções (incluindo em português). Narra a história de um touro que se recusava a ser como os outros. Em vez de agressivo e violento como os seus semelhantes, Ferdinando prefere cheirar flores e recusa-se a participar em touradas. Ele rejeita a agressividade e procura a sua liberdade individual, alicerçada no respeito pela diferença. Promove valores como a tolerância e a paz. Em 2017, foi adaptado para filme pela companhia multinacional Disney. 

 

Três com Tango

 

Os autores Justin Richardson e Peter Parnell estrearam-se com esta obra, ilustrada por Henry Cole. Narra a história de uma família de três pinguins, tendo sido um êxito desde a sua publicação, em 2005 (tem um custo de 14,00 euros) (Imagem: Reprodução Wook )

Resumo: baseia-se na história real de um casal de pinguins-de-barbicha (ambos machos) que se juntaram e tentaram chocar uma pedra. Depois de observar as tentativas infrutíferas dos pinguins, o tratador do zoológico do Central Park, em Nova Iorque, Rob Gramzay, concedeu-lhes a oportunidade de chocarem um ovo de pinguim no seu ninho. Foi assim que nasceu Tango: o primeiro pinguim-fêmea a ter dois pais. Este livro, que outrora foi censurado pelo setor conservador americano, já se encontra disponível em português. Retrata o amor, indiscriminadamente.

 

O livro do Pedro

 

A escritora portuguesa Manuela Bacelar lançou este livro em 2008. Foi a primeira publicação infantil, em Portugal, a abordar o tema da parentalidade nas suas formas mais diversas (tem um custo de 12,00 euros) (Imagem: Reprodução Wook )

Resumo: a Maria está grávida e decide contar a história das suas origens à sua filha. O que torna a narrativa especial é o facto da personagem principal ter dois pais: o Pedro e o Paulo. É um livro que alimenta o imaginário infantil com diversidade, abordando as várias formas de amar.

 

Por quem me apaixonarei?

 

Escrito por Wieland Peña e ilustrado por Roberto Majá, em 2007. Foi editado pela Associação ILGA Portugal, com o apoio da “Fundación Triângulo”. Retrata o questionamento de duas crianças sobre a infinitude das possibilidades (tem um custo de 10,00 euros) (Imagem: Reprodução ILGA )

Resumo: a Marta e o André são duas crianças curiosas. O tempo vai passando e elas começam a questionar-se sobre o futuro. Por quem me apaixonarei? — interrogam-se. Graças à ajuda do professor de Química, apercebem-se que não poderão escolher a pessoa por quem se apaixonarão. É uma história que deambula pelas possibilidades, retratando os afetos no seu estado mais puro, sem que as normas sociais interfiram.

 

A princesa e a costureira

 

Foi publicado em 2015, sendo considerado o livro infantil, do Brasil, que abordou, pela primeira vez, o amor entre duas mulheres. É da autoria de Janaína Leslão e foi ilustrado por Júnior Caramez (tem um custo de aprox. 4,00 euros, no formato digital) (Imagem: Reprodução Amazon )

Resumo: narra a história da princesa Cíntia que havia sido prometida em casamento a Febo, o príncipe do reino vizinho. Com a aproximação da data do matrimónio, a princesa foi obrigada a encomendar o seu vestido. Desta forma, conheceu a costureira Isthar, por quem se apaixonou perdidamente. Este livro pretende auxiliar familiares e profissionais a abordarem a questão da orientação sexual com as crianças, possibilitando a abertura de horizontes e a emancipação das vontades. Antes de ser publicado em 2015, o livro foi rejeitado por cerca de 20 editoras brasileiras, que o consideraram “chocante”.

 

O grande e maravilhoso livro das famílias

 

Este livro infantojuvenil foi escrito por Mary Hoffman e ilustrado por Ros Asquith. Com muita criatividade à mistura, a história vai-se centrando na complexidade e na variedade dos modelos familiares (tem um custo de 63,76 euros)  (Imagem: Reprodução Fnac )

Resumo: através de um retrato sensível e bem-humorado das vivências familiares, este livro vai retratando os diferentes modelos parentais. Há espaço para famílias extensas ou reduzidas; hetero ou homossexuais; monoparentais, biológicas ou adotivas. Aborda temas como o amor, a tolerância e a diversidade. É uma boa sugestão para quem pretende mostrar aos mais pequenos que as famílias não são (nem podem ser) todas iguais. Este livro demonstra que a rotina quotidiana — que envolve a alimentação, o trabalho, a casa, as pessoas, o lazer, etc. — pode servir de inspiração para uma boa narrativa.

 

O dia em que os lápis desistiram

 

É da autoria de Drew Daywalt e contém ilustrações (fantásticas) de Oliver Jeffers. É uma história que retrata a cor do mundo: diversa, criativa e imensa (tem um custo de 14,00 euros) (Imagem: Reprodução Wook )

Resumo: neste enredo, os lápis de cor zangam-se. Por exemplo, o lápis preto está cansado de ser usado apenas para delinear contornos; o azul já não aguenta pintar apenas oceanos; e os lápis amarelos e laranjas já nem se falam, porque estão sempre a discutir sobre a verdadeira cor do sol. Este livro pretende, através de um história simples, ensinar às crianças que o mundo está repleto de cores e diversidade, deixando de lado as construções sociais obsoletas que se regem pelo sentido normativo. Não há limites para a criatividade e a realidade de cada pessoa deve ser colorida individualmente.

 

O cabelo de Lelê

 

Valéria Belém, jornalista e escritora do Rio de Janeiro, decidiu investir numa história sobre a herança africana. As ilustrações ficaram a cargo de Adriana Mendonça. A dupla artística, através de uma narrativa cheia de pormenores, conseguiu transmitir uma mensagem sobre a aceitação individual (tem um custo de aprox. 9,00 euros) (Imagem: Reprodução Google Books )

Resumo: Lelê, a personagem principal do livro, é uma criança insatisfeita com o seu cabelo. Este é crespo, rebelde e todo cacheado e ela não sabe o que fazer para o pentear. Até que, certo dia, encontra um livro de História que retrata o seu tipo de cabelo. Perseguindo o objetivo de descobrir um pouco mais sobre si, Lelê constata que os fios do seu cabelo foram marcados pela herança africana. É um livro divertido, que ajuda as crianças a aceitarem-se como são, dando-lhes confiança.

 

Meu amigo Jim

 

Da autoria de Kitty Crowther, este livro retrata a amizade entre uma gaivota e um melro. Apesar das diferenças físicas e dos hábitos diários distintos, Jim e Jack complementam-se (tem um custo de 54,19 euros) (Imagem: Reprodução Fnac)

Resumo: Jim é uma gaivota e Jack é um melro. Um é branco e o outro é preto. Um vive perto do mar e o outro no campo. Se um adora ler, o outro prefere acender a lareira com folhas de livros. Apesar de tantas diferenças, os dois têm algo muito forte em comum: gostam de estar juntos. É um livro delicioso que aborda, com naturalidade e sensibilidade, as diferenças com que nos deparamos diariamente. Aos poucos, os temas da homossexualidade, do preconceito racial e o hábito da leitura vão desabrochando na narrativa. Pretende alimentar os mais pequenos com doses de ternura, empatia e respeito.

 

A Princesa que queria ser Rei

 

Da autoria de Sara Monteiro, este livro, que contém ilustrações de Pedro Sarapicos, pretende expor uma narrativa diferente sobre o tradicional “conceito” de princesa (tem um custo de 13,00 euros) (Imagem: Reprodução Fnac )

Resumo: o maior desejo da princesa desta história era o de herdar o trono e governar o seu país. No entanto, o seu pai, quando é confrontado com as suas tentativas, diz-lhe que o cargo de rei só pode ser exercido por um homem. Diferente dos estereótipos convencionais femininos, esta princesa alta, forte e peluda decide provar a todos que é tão boa como qualquer homem; quiçá, mesmo melhor. É um livro que aborda a questão da igualdade de género, realçando a importância da individualidade e da tolerância.

1 Comentário

  1. 19 Março, 2019 às 15:01 — Responder

    Boa tarde, Marta!
    que felicidade encontrar A Princesa e a Costureira entre os títulos recomendados. E estão em ótima companhia!
    abraços,
    Janaína Leslão

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