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O dia em que Carlos Drummond de Andrade decifrou os Beatles

(Imagem: Reprodução prosaempoema)

Em março de 1969, os editores da extinta revista Realidade propuseram ao poeta Carlos Drummond de Andrade para uma tarefa inusitada: traduzir seis músicas do então recém-lançado Álbum Branco, dos Beatles. O resultado da empreitada saiu melhor do que a encomenda. Drummond deu graça e estilo à letras, como relembrou Carlos de Oliveira, colunista do Estado de S. Paulo.

A chegada do Álbum Branco às rádios do Brasil, em março de 1969, causou polêmica por causa das letras das músicas. Falava-se que uma das músicas seria pornográfica, outros diziam que, assim como no álbum anterior, Sargent Peppers, havia músicas falando sobre drogas…

Para averiguar o que havia de verdade em tantos mistérios, a revista Realidade propôs um mergulho pelas letras dos Beatles conduzido por um dos maiores poetas brasileiros, “de pena leve, elegante, especial, insuspeito”. Drummond já tinha experiência com traduções e o resultado foi uma tradução livre e cheia de graça, digna de um poeta.

Veja abaixo a poética tradução de Drummond para “Obladi Oblada”, “I Will”, “Happiness is a Warm Gun”, “Why Don’t We Do It in The Road?”, “Blackbird” e “Piggies”, acompanhadas do comentário de Carlos de Oliveira:

Obladi Oblada – “A tradução de Obladi Oblada é singela e guarda a alegria que a letra original quer passar, com os personagens Desmond e Molly se alternando entre cantar numa banda e se embelezar em casa”.

Desmond tem um carrinho na Praça do Mercado.
Molly vocaliza num conjunto.
Desmond diz a Molly: Por teu rosto sou vidrado
Molly diz-lhe: O quê? e pega-lhe na mão.
Obladi, obladá, a vida continua: olá,
olalá, como a vida continua!
Obladi, obladá, a vida continua… Olá,
olalá, como a vida continua!
Desmond toma o ônibus, vai à joalheria
compra anel de ouro de ofuscar
e leva-o a Molly, que espera junto à porta.
De anel no dedo, eis Molly a cantar.
Em um par de anos terão construído
um lar bacana doce que nem cana.
Um par de garotos corre pelo pátio
desse casal unido.
Olha Desmond feliz na Praça do Mercado.
Ao lado, os molequinhos ajudando.
Molly ficou em casa se enfeitando
e à noite ainda canta no conjunto.
Olha Molly feliz na Praça do Mercado.
Ao lado, os molequinhos ajudando.
Desmond ficou em casa se enfeitando
e à noite ela ainda canta no conjunto.
E se querem se divertir, obladi, obladá!

 

I Will – “Revelou-se uma canção de amor”.

Desde sempre te amei
e bem sabes que ainda te amo.
Devo esperar toda a vida?
Se quiseres — esperarei.
Se alguma vez te vi
nem sequer teu nome escutei.
Mas isso não faz diferença:
sempre a mesma coisa sentirei.
Eu te amarei por todo o sempre, sempre,
desde a raiz do meu coração
e te amarei quando estivermos juntos
e te amarei na solidão.
Quando finalmente te encontrar
tua canção envolverá o espaço.
Canta bem alto, para eu escutar.
Tudo farei para te dar o braço
pois tudo em ti me prende a mim.
Bem sabes que farei tudo
tudo farei.

Happiness is a Warm Gun – “Drummond não se deixou levar pela gíria inglesa da época (ou não a conhecia) e traduziu “I need a fix” como “Preciso de justa-causa”, o que não faz muito sentido em relação ao resto da letra. “A fix”, na gíria inglesa, pode significar tanto um ponto de apoio, um trago ou ainda uma injeção (de alguma droga). Difícil saber o que John Lennon quis dizer com o verso, embora seja possível depreender sua dependência da droga”.

Até que essa garota não erra muito
oi oi oi oi oi oi oi oi
Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo
como lagartixa na vidraça.
O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.
Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.

Why Don’t We Do It in The Road? – “Temos uma tradução literal”

E por que não aqui na Estrada?
Não há ninguém para ver nada
E por que não aqui na estrada?

Blackbird – originalmente “despojada e melódica, gravada por Paul McCartney acompanhado por apenas um violão e a marcação de um metrônomo, ganhou contornos de esperança na tradução de Drummond”.

Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu voo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu voo.
Melro que cantas no morrer da noite,
com estes olhos fundos aprende a ver
A vida toda
esperaste a hora e a vez de ser livre.
Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.
Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.
Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu voo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu voo
esperaste a hora e a vez de teu voo
esperaste a hora e a vez de teu voo.

Piggies – “De George Harrison, teria inspirado o lunático Charles Manson e seu bando a assassinar a atriz Sharon Tate, em 9 de agosto de 1969. Ela estava grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski e foi morta a facadas. Na tradução de Drummond, nada que pudesse sugerir uma violência dessas.”

Viste os porquinhos
rebolando na imundície?
Para todos os porquinhos
a vida está cada vez mais difícil
e brincam sempre na sujeira por aí.
Viste os mais taludos porquinhos
em suas engomadas, alvíssimas camisas?
Olha os mais taludos porquinhos
em algazarra na imundície
com camisas alvíssimas a folgar por aí.
Em seus chiqueiros, plenamente protegidos,
ao que vai por aí nem ligam.
Nos olhos deles falta uma coisinha:
precisam mesmo é de suma porcaria.
Por toda parte há muitos porquinhos
vivendo suas porquinhas vidas.
Podes vê-los para o jantar saindo
com suas porquinhas mulherinhas
de garfo e faquinha para comer presunto.

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