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Sum Marky: Tempo de Flogá

Na Ilha dos Papagaios (a ilha do Príncipe*) vai ser construído o campo de aviação: para isso foi contratado de Portugal um engenheiro, Carlos Silveira, para supervisionar a obra. Para Carlos a Ilha não é novidade nenhuma: dezoito anos e um casamento antes, já lá esteve para construir a torre do telégrafo, acabando por se envolver com uma jovem local e aproveitar de algum tempo de flogá, de “brincadeira”, de descontração. Nesta nova temporada Carlos acabará por se envolver com a sobrinha da sua velha paixão e descobrirá que, da relação antiga, nasceu um filho: um rapaz com uma inteligência acima da média, que estudou no Liceu em São Tadeu (São Tomé*) mas que, no entanto, vive às margens da comunidade devido à sua incapacidade de lidar com a cor da sua pele mestiça, incapaz de ser branco entre os brancos ou negro entre os negros.

Contudo, é redutor fazer deste romance a história sentimental e pessoal do protagonista: a verdadeira questão abordada pelo autor é a postura dos locais perante a chegada do alegado progresso, obviamente de acordo com um cânone europeu. De facto, com o início das obras para a construção do aeroporto, a sociedade começa inexoravelmente a dividir-se em dois grupos: os que vêem o campo de aviação como uma possibilidade de sair do isolamento e melhorar as próprias condições de vida e os que, pelo contrário, ficam aterrorizados perante tal perspectiva, receando que tamanha mudança desestabilize para sempre os delicados equilíbrios da ilha, tanto no seio da comunidade local como no que diz respeito às relações com os brancos.

É curioso como toda a crítica literária se tenha concentrado na poesia de STP em detrimento da prosa: Tempo de Flogá poderá não ser uma obra-prima da literatura lusófona mas não deixa de ser um romance que desperta algum interesse. Romance onde o autor consegue retratar com uma boa eficácia a atmosfera imóvel e estagnante de São Tomé e Príncipe, onde o mais pequeno acontecimento pode dar azo a semanas a fio de conversa. No entanto, como foi dito acima, o tema central é a dicotomia entre novo e velho, cristianismo e religião ancestral, médico branco e curandeiro, aceitar o progresso como algo inevitável mas positivo ou, optar por fugir dele, como fará uma metade dos locais, dispostos a aventurarem-se em alto mar com barquinhos improvisados, sem cartas nem conhecimentos marítimos, em busca de uma ilha minúscula, inóspita e infértil onde, contudo, não terão de se submeter à chegada do tão receado progresso.

Tempo de Flogá é isto tudo: um livro escrito em tons pastel, onde transparece todo o amor dos locais para a sua terra, bem como o encanto magnético dos brancos que a conheceram e que, inelutavelmente, nunca mais se conseguem desprender dela. É, no fundo, a história do símbolo da modernidade por antonomásia – o avião – que tem que se encaixar e coexistir com o mundo das lendas do velho da árvore-do-pão.

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