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Crónica – O Guarda

Ele é o guarda. Em Luanda há muitos como ele. Sentado o dia inteiro à frente de casas, bancos, hotéis, lojas… Ignorado por tudo e por todos, confunde-se na escuridão da noite. É como se fosse invisível, salvo o cano negro e brilhante da sua AK-47*. Invisível, mas omnipresente.

Porque o guarda está sempre lá.

Muitos deles foram soldados no passado. Trocaram as noites frias da chana* pelas noites frias da cidade. Trocaram a constante adrenalina da marcha pela monotonia constante do seu posto. Trocaram armas gritantes por estas silenciosas, porque o guarda nunca dispara.

À noite, é vê-lo a ouvir rádio ou em pequenos grupos com outros guardas, contando velhas histórias de tempos idos. Os mais velhos, ainda se lembram da guerra da independência contra os Tugas*. Os mais novos, como este, só lutaram na guerra contra os rebeldes. Ontem chamavam-lhes rebeldes, mas hoje lhes chamam de irmãos. Afinal não somos todos parentes?

Ele prefere não pensar na guerra, porque lhe abre feridas na alma, muitas delas ainda não passaram…

De madrugada, é vê-lo exausto, adormecido na cadeira branca de plástico, com a cara debaixo do casaco e o frio a entrar pelo fardamento ligeiramente roto. Ao aproximar-me, ele acorda. Olha-me com um olhar confuso. “Boa noite chefe”, diz ele. “Podes dormir à vontade”, respondo-lhe. “Hoje falei com os gatunos* para não te incomodarem”. Ele ri. Um riso triste, que esconde memórias longínquas. Volta ao seu posto e olha para a incerteza. Fecha os olhos cansados. Amanhã é outro dia, diferente, mas igual.

Porque ele é o guarda.

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