Desporto

Surfistas brasileiros com fama de desordeiros?

A gente não surfa só para nós. A nossa família depende de nós, os nossos irmãos dependem de nós, então tem muita coisa dentro daquela bateria (heat). Por isso que cada bateria que nós passamos, cada ponto a mais, cada dinheiro a mais que fazemos, significa muito”. Alejo Muniz em Brink: Sufing’s New World Order – The Story behing Gabriel Medina’s World Title

 

 

Em entrevista à Conexão Lusófona, um dos donos do canal brasileiro de entretenimento Woohoo e ícone do surfe local, Ricardo Bocão, explica que, no circuito mundial de surfe, “os australianos dominaram durante quase 30 anos, assim como os americanos (por conta do Tom Curren e Kelly Slater), e sempre tinha espaço para um ou outro havaiano (Derek Ho, Sunny Garcia, Andy Irons), sul-africano (Shaun Tomson). E o que tinham em comum todos eles? A língua inglesa,” sublinha.

 

Rodrigo Bocão, o primeiro presidente
Ricardo Bocão, o primeiro presidente da Associação Brasileira de Surfe Profissional (ABRASP), em 1987-88 (Imagem: Reprodução Rodrigo Brandassi)

O início dos anos 90, a intromissão de uma nova nacionalidade, a brasileira, veio refrear um pouco o domínio absoluto dos anglo-saxões. Apesar de as vitórias não serem uma constante, já se notava que toda uma nova geração de surfistas tomava de assalto a ribalta mediática da modalidade, com nomes como Victor Ribas (3º classificado no circuito mundial de 1999), Guilherme Herdy, Renan Rocha, Peterson Rosa (que detém, até hoje, o recorde de maior número de temporadas na elite, 14), Jojó de Olivença, Ricardo Tatuí, Tinguinha Lima, entre muitos outros.

 

Esta ascensão meteórica foi visível em 1994, quando oito dos atletas que integravam o top 45 eram brasileiros, e um nono participou em algumas etapas como alternate. “Estes surfistas mostraram para  os mais novos que era possível,” diz Ricardo Bocão.

 

Capitaneados pelo surfista Adriano de Souza “Mineirinho”, a partir de 2011 surgiu toda uma nova geração, onde se pontificam Gabriel Medina e Filipe Toledo, e as vitórias individuais surgiram naturalmente. Apelidados pela imprensa anglo-saxónica de “Brazilian Storm”, esta tempestade não foi bem aceite por americanos e australianos.

 

Em “Brink: Sufing’s New World Order – The Story behing Gabriel Medina’s World Title”, um dos atletas que fez parte do circuito principal, Alejo Muniz, caracteriza os brasileiros como “um povo feliz, sempre sorrindo. E às vezes incomoda as outras pessoas ver a felicidade dos outros (…) que somos todos amigos, correndo atrás do mesmo sonho e isto pode criar inimigos”.

 

Neste mini-documentário, produzido pelo site americano The Inertia, o surfista Jadson André conta um episódio envolvendo ele próprio e mais dois australianos, em que o brasileiro foi insultado durante um campeonato, com comentários e gestos racistas. “Talvez há 15 anos os primeiros brasileiros no circuito mundial fizeram algo de errado e desde então ficou aquele sentimento geral de que todos os brasileiros comportam-se dessa forma”.

 

Ricardo Bocão explica, sem rodeios, os motivos por trás deste comportamento. “O australiano frequentava a Indonésia anos e anos sozinho, sem locais, e os brasileiros chegaram e disseram: você não é daqui como eu não sou, não tem mais direito que eu. E os australianos não entendiam, e talvez não entendam até hoje, e foi aí que começaram as animosidades”, disse.

 

Ricardo Bocão compara ainda a personalidade dos brasileiros, “sangue quente, latino, fala alto, expansivo e, quando está em grupo, é muito barulhento, extrovertido e alegre” com a dos anglo-saxões, “mais comedido, mais quieto, muito mais educado. E na disputa das ondas os australianos têm todo um código de convívio no mar (que, muitas vezes, também não respeitam), e agem de maneira mais educada do que a maior parte dos brasileiros”.

 

No final, contudo, Bocão acaba por desvalorizar a parte das boas maneiras porque “independentemente da raça,  surfista é um bicho egoísta”.

 

Quem é Ricardo Bocão?

 

Este carioca de 64 anos começou a surfar em 1969 e foi o primeiro brasileiro a constar na lista do campeonato de ondas grandes, o “Eddie Aikau Invitational”, que se realiza em Waimea, no Havaí.

 

Em 1979, lançou a revista Realcee que, três anos depois, passou para formato televisivo e ficou no ar durante nove anos. Como produtor independente trabalhou durante 12 anos (1994-2005) na Sportv, da Globosat. Foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Surfe Profissional (ABRASP) em 1987/88 e, desde 2012, tem o seu próprio canal, o Woohoo.

 

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