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Estou Lá: um anti-ciclone de música

Estou Lá foi uma grande festa musical dentro dos XVIII Colóquios da Lusofonia organizados pola* AILC (Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia), a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e a Associaçom Galega da Língua (AGAL) a que a Galiza, berço da língua galego-portuguesa, acolheu pela primeira vez depois de visitar o Brasil e Macau.

Estivemos lá para estreitar laços e estender pontes; e que melhor lugar para isso que Ourense, essa cidade-ilha que nos deu arrolo*: desde a Ponte Romana (século I) até a Ponte do Milénio, a quinta e última. Há alguns anos Camilo Nogueira expressava: “Oxalá algum dia houver tantas pontes sobre o Minho, como em Paris sobre o Senna”. O pai Minho, o rio que abraça e namora Galiza e Portugal. Canté* que assim seja.

O magnético Xoán Curiel foi o encarregado de começar, após a minha apresentação. Ensinou-nos a conectar-nos na brisa, a descobrir na língua o sabor do beijo e a voar de um jeito diferente no azul. Aliás “atlantizou” o uquelele no tema intitulado Babel. Com Xoán assistimos à consolidação de um grande criador, de um músico que parece estar a chegar a um estado de forma dificilmente melhorável e que sabe contagiar a alegria de viver sem medos, de transmitir a solidariedade. Sua foi também a direção musical e artística deste espetáculo.

Najla Shami levou-nos com a sua vibrante voz desde as ruas de Compostela às selvagens montanhas de Lugo e daí à fértil Palestina. Sentimos o calor do seu inconfundível estilo que navega entre a MPB, a nova música galega e os sons de raiz. Coração estaladiço soou mais africano que nunca graças à sua capacidade para enfeitiçar com a palavra e a melodia. Surpreendeu-nos com o Alalá* das Pedras, acompanhada unicamente polo baixo de Norton Daiello, deixando-nos quase sem respiração. Ficamos à espera da sua evolução que parece ainda não ter limites.

Eneida Marta, mulher de doce mel, realizou uma interpretação magistral do apaixonante tema És um Fidju. Os seus duetos com Najla Shami (A Velha Chica) e Luanda Cozetti (Mindjeris di panu pretu) foram a confirmação da qualidade e variedade das vozes femininas lusófonas. Estas três mulheres iluminaram a noite ourensã* e fizeram-nos sentir que a nossa língua e as nossas almas ressoavam noutras latitudes, inesperadamente próximas.

Tomamos um café bem carregado de talento e boa onda junto a Luanda Cozetti e Norton Daiello. Com o aroma da sua sofisticada proposta e o açucre da sua natural comunicação com o público, os Couple Coffee demonstraram com Sambinha cliché ou com a versão da mítica Dindi, que o seu nome na música não é por acaso. Luandamos com saudade e orgulho, com uma proposta que refresca e vigora a nossa sensibilidade.

João Afonso trouxe-nos cartas cheias de compromisso e de esperança porque sabia que lá, nessa noite não ia encontrar “fronteiras a dividir corações”. Quis fugir com o cientista mas, felizmente, ficou connosco e deleitou-nos com o aconchegante Carteiro em bicicleta. A memória do seu tio Zeca e da música tradicional galega apareceu ao interpretar junto a Luanda Cozetti o Cantar galego, que foi cantarolado até polos técnicos de som e de iluminação. A voz de João tem o sabor do bom vinho, da conversa com os amigos mais achegados.

A banda esteve composta por Paulo Silva, Serginho Sales e Pablo Vidal, garantia de momentos inesquecíveis. Teclados, baixo, bateria e acordeão encheram de magia a cidade das Burgas*. A Bahia, Minas Gerais e a Galiza fizeram tremer de emoção a malta.

Gozemos pois da lusofonia, também conhecida por galeguia*, à qual os galegos e pessoas de todo o mundo pertencem por direito próprio. Em palavras da nossa Rosália de Castro* “É feliz o que sonhando, morre. Desgraçado o que morra sem sonhar”. Continuemos a amar e a fazer realidade os nossos sonhos.

Damas e cavalheiros, rapazes e raparigas, pequenos e grandes, avós e crianças, meigas* e lobisomens, com todos vocês… Estou lá!

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