Sustentabilidade

Tudo sobre o plástico nos oceanos: de onde vem, quais as consequências, o que falta fazer e mais

12 min
Emily Woglom, vice-presidente executiva da Ocean Conservacy, referiu que, segundo a estimativa global, há 8 mil milhões de toneladas de plástico (Brasil: 8 bilhões) a entrar nos oceanos anualmente. Tal como a própria compara, esse número equivale ao despejo de um camião cheio de lixo por minuto. Estima-se, portanto, que haja mais plástico do que peixes no mar, até 2050.

 

320 milhões de toneladas de plástico em produção, anualmente. Cerca de 10% desse valor é reciclado; o restante, esmagadora maioria, é queimado, enterrado ou, simplesmente, perdido no ambiente. As provas de que este método é completamente insustentável para o planeta já existem — e são bem ilustrativas. A ilha de Santa Luzia (Cabo Verde) é um dos exemplos, estando fortemente poluída pelo plástico, oriundo de pelo menos 25 países.

 

O caso mais impressionante passa-se na mancha plástica do oceano Pacífico, situada entre o Havaí e a Califórnia. Esta concentração tem, estima-se, o tamanho de três “Franças”, ou seja, qualquer coisa como 15 “Portugais”. Nela estão contidas mais de 1,8 biliões de pedaços de plástico (Brasil: 1,8 trilhões). Segundo as informações apresentadas pelo site do Ocean Cleanup, a estimativa do peso total ronda as 80 mil toneladas — equivalente a cerca de 500 boeings. Além desta, existem outras quatro manchas do género, espalhadas pelos oceanos.

 

Quanto à decomposição natural deste material, esta depende sempre do produto em que está inserido. No entanto, a espera é sempre elevada. As pontas de cigarro, por exemplo, demoram entre um ano e meio até 10 anos para se degradarem. As garrafas de plástico demoram 70, no mínimo, e podem chegar aos 450 anos. Mas há exemplos ainda mais drásticos, como as linhas de pesca (monofilamento) e o esferovite (isopor). Cada um destes produtos pode demorar mais de 500 anos até se degradar e, no caso do esferovite, a degradação pode nunca acontecer.

 

A ameaça ao nosso ecossistema e ao planeta Terra é absolutamente real, assustadora e tem que ser travada agora. Perceba o porquê.

Como é que o plástico vai parar aos oceanos?

plastico nos oceanos lixo
(Imagem: Reprodução Dustan Woodhouse)
A quantidade de plástico que vai parar aos oceanos deixa, cada vez mais, as pessoas em estado de alerta. Infelizmente, isso não significa que as mudanças necessárias estão a ser colocadas em prática. Mas, afinal, como é que este material se infiltra nas águas? Como é que chega até lá? A explicação é relativamente simples mas, ao mesmo tempo, difícil de aceitar. Sobretudo porque as causas deste flagelo parecem ser facilmente evitáveis e, claro, são de total responsabilidade da mão humana.

 

Além da falta de consciência ambiental da humanidade, que leva a que a prática da reciclagem seja descurada, a insustentabilidade do plástico é a maior aliada desta poluição imensa. Tendo em conta que se trata de um material que pode durar meio milénio, ou até mais, o encaminhamento natural do mesmo, que segue para as águas, acaba por ser uma ameaça a inúmeras espécies e a todo o nosso planeta.

 

Primeiro, o plástico começa a circular nos rios. Está nas ruas ou nos aterros (quando não é reciclado) e, através do vento e da ordem natural do meio ambiente, vai parar às águas. Depois, visto que a sua durabilidade é gigantesca e não se degrada, dá entrada nos oceanos. Durante todo este processo, os produtos de plástico vão-se desgastando devido às mudanças de temperatura e, consequentemente, desfazem-se em partículas mais pequenas: os microplásticos. Estes também se acumulam nas águas e mantêm o seu baixíssimo nível de degradação.

 

Estima-se que 20% do plástico presente no oceano seja originado por contentores de navios ou instrumentos de pesca. Os restantes 80% derivam de locais em terra, ou seja, chegam ao mar através das águas fluviais. Como demonstrado neste vídeo da BBC Earth, o processo parece passar-se fora da rota dos nossos olhares, mas tudo acontece bem ao nosso redor. Basta pensar nas “bocas” de drenagem das águas, instaladas no chão da grande maioria das cidades e vilas, através das quais o lixo escorre para os rios. Globalmente, estima-se que estes arrastam entre um a dois milhões e meio de toneladas de plástico para os oceanos, por ano.

 

Mais de 700 mil fibras de plástico podem ser produzidas durante a lavagem de seis quilogramas de roupa — e sim, muita da nossa roupa tem plástico. Para onde é que elas vão? O mesmo acontece com uma tarefa tão mundana quanto a rotina da nossa higiene oral. Muitas das pastas de dentes comercializadas no mercado contêm partículas de plástico. No final de cada utilização, para onde vão essas partículas? Para o oceano, tal como tudo o vai pelo mesmo caminho, ou seja, pelo cano abaixo. Este vídeo ajuda a entender a lógica:

Quais as principais consequências?

 

Além de representar 70% da superfície do planeta, é do oceano que surge mais de metade do ar que respiramos. Trata-se do verdadeiro pulmão do mundo, porque é lá que estão os pequenos vegetais que absorvem o dióxido de carbono da atmosfera e fazem fotossíntese. Isto significa, nada mais, nada menos, que não sobrevivemos se os oceanos não estiverem saudáveis.

 

Os ecossistemas marinhos têm como base alimentar uns pequenos organismos chamados plânctones; 80% da vida do planeta vive nos oceanos e depende diretamente dos mesmos. Quase metade da população mundial vive em áreas costeiras e alimenta-se por meio do que o oceano fornece. Todo este ciclo está ameaçado, ou seja, todos os ecossistemas estão em risco.

 

As principais consequências da poluição marítima ameaçam todo o nosso planeta. O impacto que esta tem na vida marinha e no ecossistema é estrondoso. As correntes marítimas formam autênticas manchas plásticas, fruto da acumulação do material ao longo do tempo, e os microplásticos são confundidos por alimento por algumas espécies. Muitas vezes, estas acabam mortas como vítimas deste flagelo: morrem mais de um milhão de aves e 100 mil mamíferos marinhos anualmente, como consequência da ingestão de plástico ou do entrelaçamento em utensílios descartados feitos do mesmo material.

 

Os peixes estão contaminados?

 

Ainda não há conclusões absolutas sobre o estado dos peixes, no que toca à alimentação humana. Sabe-se que a contaminação dos mesmos está a acontecer, ao longo de toda a cadeia alimentar, desde as espécies mais pequenas até às baleias. Por isso, não está em causa se essa contaminação vai chegar até ao ser humano, mas antes quando é que esse fator vai revolucionar a forma como nos alimentamos.

 

Os microplásticos são ingeridos pelos plânctones e, assim, esses pequenos materiais começam a circular na nossa cadeia alimentar. Parece apenas prudente concluir que, se os peixes estão a ingerir estas partículas e se a presença das mesmas no seu habitat não é propriamente tímida, o ser humano também vai acabar por ingeri-los.

 

Já há estudos sobre o tema. A investigadora ecologista Chelsea Rochman lançou, em 2015, os resultados de uma pesquisa feita aos peixes consumidos nos Estados Unidos da América e na Indonésia. As conclusões, como se adivinha, não foram animadoras. Porém, este tipo de alertas são mais que necessários por parte da comunidade científica, para que o poder político aja com a maior urgência possível.

 

Dos 76 peixes recolhidos num mercado indonésio, de 11 espécies diferentes, 28% continham detritos marítimos gerados pelos humanos (detritos antropogénicos). Entre as 11 espécies selecionadas, 55% estavam contaminadas. Todos os elementos encontrados eram compostos por plástico.

 

No caso dos Estados Unidos, foram recolhidos 64 peixes de 12 espécies distintas; 25% acusaram a presença de detritos. Se falarmos das espécies, o número sobe para os 67%. No entanto, ao contrário do cenário indonésio, os detritos encontrados eram maioritariamente fibras têxteis. Uma vez que o estudo não tinha recursos para confirmar a origem do material, não houve forma de assegurar se era ou não composto por plástico. De qualquer maneira, a pesquisa deixa o alarme bem claro — até porque todos os peixes estudados estavam assinalados para consumo humano — : é óbvio que todo este problema já está a chegar aos nossos pratos.

 

Plástico nos oceanos e as alterações climáticas

Nem todas as pessoas pensam na ligação entre a poluição dos oceanos e as alterações climáticas como algo óbvio, mas a verdade é que estes conceitos andam de mão dada. Para esclarecer esta questão, a Conexão Lusófona falou com Gil Penha-Lopes, licenciado em Biologia Marinha, investigador da área e professor no programa de Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Lisboa.

 

Em conversa connosco, Penha-Lopes explicou que, “de uma forma simplificada”, as alterações climáticas têm duas grandes causas: a emissão de gases de efeito de estufa e a destruição dos ecossistemas que realizam fotossíntese e capturam o carbono atmosférico, ou seja, as florestas e as algas oceânicas. “A contaminação por plástico em todo o sistema terrestre tem impactos significativos para a promoção das alterações climáticas, assim como para a capacidade da Vida se adaptar e evoluir”, clarificou o investigador. Da mesma forma, a degradação deste material envia mais gases de efeito de estufa — como o metano e o etileno — para a atmosfera.

 

Quanto às consequências do plástico nos oceanos, o especialista não tem dúvidas de que o futuro continuará problemático. “Os impactos da disrupção endócrina específica, de cada indivíduo de uma espécie, e ecosistémica — dado que afeta a cadeira trófica e funcional no seu todo — que o plástico tem e poderá ter, considerando os cenários climáticos, vão além da nossa capacidade atual (do ponto de vista científico) e deverão ter consequências severas para a manutenção de condições propícias à Vida, especialmente ao que sustem o ser humano neste planeta”, esclareceu Gil Penha-Lopes.

Quais os países que mais deitam plástico nos oceanos?

Um estudo publicado na revista Science, referente a 2010, liderado pela engenheira ambiental Jenna Jambeck, apurou quais os países que mais geram poluição nos oceanos, nomeadamente no que toca ao plástico. Conheça as posições do ranking e a quantidade assustadora que é gerada por cada um.

plastico nos oceanos por pais
Ranking dos 10 países que mais poluem os oceanos com plástico, a nível mundial. Os valores apresentados, à direita, referem-se aos milhões de toneladas métricas anuais de plástico que acabam no oceano, em cada país. Dados apurados através do estudo supracitado, denominado “Plastic waste inputs from land into ocean”, liderado pela engenheira ambiental Jenna Jambeck

África do Sul; Índia; Argélia; Turquia; Paquistão; Brasil; Bruma; Marrocos; Coreia do Norte e os Estados Unidos da América são a restante metade dos 20 países que, por ordem, mais poluem os oceanos com plástico. É importante realçar que, se somada em conjunto, a União Europeia ocuparia o 18.º lugar, em vez de Marrocos.

Reciclagem resolve?

plastico nos oceanos reciclagem
(Imagem: Reprodução Wikimedia Commons)

O plástico que é reciclado também acaba no oceano, infelizmente. Pode demorar mais a chegar, mas, eventualmente, é lá que vai parar. Isto não significa, de todo, que a reciclagem é inútil — bem pelo contrário. Um bom sistema de reciclagem pode fazer uma grande diferença. Conseguimos facilmente perceber isso através do exemplo norueguês. Neste modelo, citado pela BBC Brasil como o melhor do mundo no que toca à reciclagem de garrafas plásticas, há uma lógica de recompensa que faz com que as pessoas não descurarem a prática. Graças a este sistema, a taxa de reciclagem chegou aos 97% no país nórdico. Impressionante, não é? Trata-se de uma percentagem duas vezes maior que a brasileira.

 

Mesmo assim, é importante referir que a sociedade norueguesa não espelha o mundo. O plástico chega mais rápido e mais vezes às pessoas do que a hipótese de reciclar, com tanta facilidade, alguma vez chegará. Talvez seja mais eficaz arranjar materiais mais sustentáveis que o substituam, do que garantir que toda a população mundial o recicla. Isto porque, mesmo que a taxa de reciclagem do plástico subisse a pique, é muito mais seguro para o futuro do planeta que os materiais utilizados no quotidiano das pessoas sejam biodegradáveis e amigos do ambiente.

 

Mas, afinal, vale a pena reciclar? Claro, indubitavelmente. A reciclagem é uma prática cívica que deve ser incentivada, que ajuda o planeta no meio deste caos ambiental. O que fazer com o plástico se não reciclá-lo? Essa é a única maneira atual de atrasar a sua penetração nos locais indevidos — como os oceanos. No entanto, a resolução do problema não passa apenas por aí. Os danos já se tornaram demasiado grandes e o chamado single-use plasticaqueles produtos de plástico que só se usam uma vez e que demoram meio milénio a desaparecer do planeta não deveria sequer continuar a ser produzido.

 

A resposta é, portanto, negativa: a reciclagem não resolve. Deve ser praticada, não só com o plástico mas, também, com absolutamente todos os materiais recicláveis. No entanto, a resolução passa por medidas mais drásticas, que ataquem a fonte do problema. É necessário eliminar muitos dos produtos de plástico que existem atualmente, não só das nossas vidas como do mercado, e limpar os oceanos para salvar os ecossistemas e a vida animal. É um problema demasiado grande e tem que ser encarado com seriedade, através da implementação de medidas políticas que despromovam o lixo, o plástico e a economia do mesmo — e, claro, que responsabilizem e controlem as grandes corporações.

O que posso fazer para colaborar?

Reciclar é uma ajuda, claro, mas o melhor caminho para fazer verdadeiramente a diferença, individualmente, é ter consciência ambiental. Tudo o que produzimos acaba no oceano, de uma maneira ou de outra. Por isso, não basta ter cuidado com os sítios onde depositamos os nossos resíduos — temos que ir mais longe. O cuidado começa no momento em que escolhemos o que comprar.

 

Não comprar plástico é a melhor forma de o evitar. Na realidade, o grande objetivo da humanidade deveria ser (infelizmente, ainda a longo prazo) a extinção de todos os materiais que são tão ou mais insustentáveis que o plástico. No entanto, como o mercado funciona com base em intenções comerciais, e cada indústria desenha a sua estratégia de forma a gerar lucro, a transição não se adivinha fácil. O plástico continua a ser muito lucrativo e está presente em inúmeros produtos que já se entranharam no quotidiano das pessoas. Daí que são os/as consumidores que vão fazer a diferença, mudando a direção do mercado para outro foco: o dos materiais sustentáveis.

 

É essencial que se informe sobre o que compra e que faça a transição o quanto antes. Deve sempre preferir materiais de rápida degradação, que não infetem o nosso planeta e não prejudiquem outras espécies. A Conexão Lusófona tem deixado várias dicas sobre opções não plastificadas de, por exemplo, embalagens, palhinhas (canudos) e calçado. Também apresentamos sugestões para celebrar as épocas festivas de uma maneira mais ecológica — como o Natal e o Carnaval. Ainda assim, não cesse a sua procura, porque há cada vez mais marcas sustentáveis no mercado. Se todos prestarmos mais atenção, podemos ajudar a manter o nosso planeta vivo e saudável.

 

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